Ditaduras Democráticas

Ditaduras Democráticas

Paulo Rosenbaum

24 Outubro 2013 | 00h37

Qual versão você prefere?  Que o País vai mal, bem ou muito pelo contrário?  Como saber se uma cartada econômica foi ou não bem sucedida? Ouvir a oposição? Dar crédito ao governo? Foi a maior privatização da história ou não se trata de privatizar, mas sim de parceria? Parceria é consórcio? Há como saber qual a tese mais plausível? Basta escolher a linha de consultor e bem-vindos à teia geral da complexidade. Tudo pode ter duas ou mais respostas, abordagens opostas, consensos contraditórios e explicações desencontradas. Isso significa que estamos oficialmente desobrigados da coerência. Pode ser mentira ou omissão. Mas pode ser só meia verdade. A não linearidade das respostas é apenas um desdobramento da multiplicidade de fatores simultâneos. Uma espécie de efeito colateral do caos multifatorial. Há uma recusa inconsciente em admitir que, apesar de todas as metodologias de quantificação disponíveis, a realidade se recusa a proceder cientificamente. A propaganda, como nunca antes na história do planeta, parece ter se tornado a essência de todas as coisas. Tudo depende como se divulga, o tempo na Tv, a verba destinada ao marketing e como a linguagem é articulada. Ao contrário das insinuações cada vez mais comuns, nem sempre há golpismo ou conspiração nas discordâncias. Se existem, são patrocinadas pelos cultores da lógica única e das dicotomias baratas. Ainda que os executivos públicos não enxerguem há um vasto mundo, para bem além dos partidos e das ideologias.

Enquanto os números são debatidos e a agenda fica sempre aberta no amanhã, existe uma conexão inquietante entre o cerceamento das liberdades individuais, a neo censura e o fim da vida privada. Com fervor análogo o pensamento totalitário e as multidões afobadas odeiam a liberdade de expressão. E tem sido cada vez mais frequente que façam as vezes da tropa de choque do obscurantismo. Compreensível, portanto, que a primeira vítima do arbítrio seja a imprensa, cuja natureza é intrinsecamente desafiadora, discordante e crítica. Ela expressa, explicita e ousa debater a infinidade de versões que se atribuem aos fatos. Apesar do senso comum, contra fatos sobram argumentos. Essa dificuldade para lidar com a abundância de variáveis explica a prosperidade das burcas laicas e a brutalidade com que Estado têm tratado seus habitantes. Por toda América Latina testemunhamos os direitos da cidadania cassados. Melancolicamente, o assalto da gritaria desalojou o diálogo. Não ficou fácil identificar bandido e mocinho, podem, inclusive, nunca ter existido.

Já ouvimos o suficiente acerca de um Estado onisciente que reformará a sociedade delinquente. Faltou contar a outra metade da história, o avesso deste pressuposto. Aquela que considera que uma sociedade adulta admite sonhar, mas não consegue mais dormir embalada pelo faz de conta. Exige respeito pois considera que ela é quem dá vida e propósito ao Estado e não vice versa. A sociedade emancipada não tolera conviver com o que a presidente da SIP — sociedade interamericana de imprensa — nomeou como “ditaduras democráticas”. Em qual outro período histórico teríamos um exotismo destes? A aversão ao Estado salvador e onipotente não tem nada a ver com ideologia. Tampouco é porque preferimos outros governantes, ou a sensação de que estamos quites com os débitos sociais. Fazemos por pura teimosia. É que seguir acreditando no sonho é que dá sentido para todos os outros, liberdade.