Dois poemas para o dia do levante do Gueto de Varsóvia

Paulo Rosenbaum

20 de abril de 2021 | 11h41

 

 

LEVANTE-SE, GUETO

(para quem lutou em Varsóvia)

Aprendi, não sei com quem, não sei quando
qualquer retiro,
será bom

desde que espies pela noite o que lá não está.

Não sei quando, muito menos hoje: vi sóis desaparecidos.

A esfinge cansada nada falava nem por isto fomos reconhecidos assinamos armistícios,

os homens cegam a beleza com absurdos discretos, excentricidades fugazes, fama ou decreto

Não sei se hoje,
nem até quando!
erodidos pelo excesso de sentido
nos olhos exíguos
nos sonhos, que pressionam, ambíguos

Não sei se agora,
nem até que ponto
nos guetos tchecos,
recebemos ricochetes, guetos e dialetos. Não sei mais,

se haverá um dia Heróis servem,
E nada os espanta, de que adianta?

Não sei se já
ou nunca mais. Jargões precisos, sobem ativos
em ritos concisos milícias sem ordem cessar fogo centrado, estilhaço averbado

Não sei se agora será,
ou já fomos
registro incerto,
escrevo na noite, estampido seco de perto

mapeamos o decálogo
cada silaba desceu em espiral, como alimento legível
de carne e ruinas
em leito terminal

Não sabemos agora
se o passado sonha com futuro, se há insônia
se nosso levante amealhará
a insurreição
ou seremos descobertos.

último dia, agora há certeza, tudo que sabíamos desapareceu desconheceremos o amanhã para logo mais ser
tardes para sempre.

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SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.
posso senti-los
sob meus pés,
regulares, como todas as descidas rítmicos como gelos.

intensos como florestas

No declive de gênero fantasiados de corporações
nos trens improvisados,
como máquinas de extração enquanto metrificavam judeus a IBM e a Krupp
acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo
não era noite ou fumaça e de todos os dias,
o carrasco detinha
os trilhos da proficiência

Não vi campos,
nem sinais de gritos, ou angústia das vítimas

senti cada parada
cada pequena que viveu nas cavernas preservadas nas coleções intactas
ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada pela negação da naturalidade. Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silêncio para o vapor da constância,
de quem preferiu as mãos
que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos desacreditados na sonolência de nossos dedos ou nas qualidades extintas como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo, mas a produção,
o apreço por resultados,
o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica será,

Aí temos o protocolo superado a experiência romântica sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,
Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa
Usa força do solo como tingimento, E, como furos em flautas
alternam sons com acendimento
de vela perfiladas,
nas presenças sem sequência.
na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo Porque nossos olhos retêm
o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo
é para que essa perplexidade
gere totens
e olhos sem braços nos alcancem
em noite de cristais, pogroms ou vidraças nos nomes que esfacelem a realidade, que, sem chances, observa
a violência do descuido

Mas a noite, sim, anônima Impõe a presença Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado Entupa de maturidade as nações

Achamos que,
do tabuleiro de onde estiver, deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral
Somos um passado atento
Seis milhões nas curvas
Assistidos com a brutalidade da demora O esquecimento do mundo
A carga excessiva
Que impressiona apenas
os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vítimas são eles)

Mesmo à distancia do meio do atlântico Estancaremos perto do nada

Só faz 70 anos
Os campos estavam nos libertando da vida
Enquanto a eugenia dos doutores
do partido
Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão Mas, para registros futuros jamais o barômetro do céu agirá aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007

Publicado no livro “A Pele que nos Divide”, Quixote-Do, 2018

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