E agora, amanhã?

E agora, amanhã?

Paulo Rosenbaum

16 de julho de 2014 | 14h11

Desconfiem dos estereótipos. Árabes e judeus são péssimos negociantes. Tudo bem, o Brasil pode ser mais desta vez uma exceção. Sem ofensas. Leia até o fim que tudo será esclarecido. Quase tudo. Por que as análises do conflito atual entre Israel e o Hamas se pautam pelo imediatismo? Quem não sabe que paz é raridade, a guerra obtusa? Mesmíssimas cenas: parte do mundo árabe demonizando judeus. Israelenses pedindo a retomada de Gaza. Todos sabem berrar quando não querem conversar. Testemunhei o estúpido crime premeditado dos três garotos. Suportei a vingança imbecil de guardiões religiosos que queimam pessoas vivas. Li sobre a convocação de ódio aos judeus em Paris, Frankfurt e Cairo. Será que o crematório ainda está fresco? Dentro ou fora, Judeus não podem mais aceitar imolação. Basta a culpa ancestral, a carga auto imposta, relembrada de tempos em tempos. Não é mais uma escolha, trata-se de reafirmação moral. Por isso, torna-se insuportável que imagens descontextualizadas deturpem a realidade do solo. Quando ontem Israel enfim aceitou o cessar fogo costurado pelo Egito – que oportunidade.

No documentário da HBO cinco chefes aposentados do serviço secreto de Israel, o Shin Bet, declararam que que não há solução militar. São acompanhados por generais de peso. Serão despreparados? Agentes duplos, infiltrados? Este conflito atual está com os dias contados. A pergunta vital passa a ser: e agora, amanhã? O que podemos esperar desta geração de israelenses e palestinos? Minha hipótese destoa. O fanatismo jihádico ganhou proporções irreversíveis. Boa parte não será dissuadida. Não é bem isso que amarra os acordos. Há um elemento oculto, inconsciente, subliminar mesmo. Poderia ser apelidado de fobia à emancipação. Palestinos dependem demais dos assim chamados algozes para assumir a independência. Por sua vez, Israel não consegue uma diplomacia sagaz. Teria que contar inclusive com alguma densidade psicoterápica. Para negociar sim, o que mais? Negociantes é o que mais precisam ser agora. Agora! Essa é a única perspectiva remanescente de viabilidade para aquelas terras. Mesmo santas, abrigam mais sangue do que todos os homens juntos podem suportar.

Discordo de muitas teses defendidas por Amos Óz, mas ele tem razão em uma: quem dera limitássemos as escaramuças às brigas de fronteiras, picuinhas entre vizinhos, ofensas entre embaixadores. Será preciso alguém que persuada a parte resistente aceitar os riscos da emancipação. Será duro, imensamente sôfrego depender das próprias pernas, mas o resultado final precisa ser enaltecido: o nascimento de duas Nações inteiras.

Considera-se covarde achar que não existem outras formatações possíveis. Então, daqui assumo: sou o tal pusilânime. Se o País dos sabras é só para durões, talvez eu não seja um deles. A obrigação de ser mais tolerante não comporta renunciar à autodefesa, mas pragmatismo para construir laços mínimos de confiança. E se for urgente chegar à paz de qualquer maneira? Não importa como, nem com quem. A outra alternativa é que os papeis da história podem se dar ao luxo de desfilar até o fim do abismo com a humanidade se encolhendo. Todos nós vamos passar, mas se nada for feito, o mal-estar é que fica para a semente. Já que ninguém ainda ousou caçar o direito de sonhar sigamos Martin Luther King: e se essa não fosse só mais uma guerra para dar lugar a outras? E se fosse a última?

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