Eduquem-se rapazes!

Eduquem-se rapazes!

Paulo Rosenbaum

27 Maio 2015 | 14h58

educacaodemassasxX

— Então era só isso? Era esse o diagnóstico? A nova direita precisa se educar. Mas e quanto à velha esquerda, os patronos de sempre, o sistema político que não se recicla?

— Querido, você não compreendeu. Há tradição política tanto numa quanto noutra.  Falo desta molecada que está perturbando, não entendem nada de política. Saem às ruas para tumultuar. Você observou que eles não tem uma liderança?

— Espere um pouco. Molecada? Quem são esses moleques?

— Esta rapaziada de classe média que marcha e fala bobagem, que querem fazer tudo na marra, sem negociação. Eles não têm estofo.

— Na marra? Sem negociação com a sociedade? Mas quem faz isso é o atual governo. Está falando do atual governo?

— Uff. Não, filho, falo destes manifestantes, bando de conservadores reacionários. Gente sem noção, subvers…deixa para lá.

— Eu fui na manifestação. Vi gente falando bobagens, mas a maioria pedia mudanças. Todas as classes estavam lá. Não era para, antes de tudo, analisar o fenômeno? Pois dois milhões expressaram seu descontentamento e sua desilusão. O partido exagerou, ou o senhor discorda?

(o professor virou de lado, com a boca reclinada, a língua empurrando o palato)

— Já vivi muito e tenho experiência para dizer que eles não sabem o que fazem. Depois que tudo isso passar, vão ver quem tinha razão. Só há uma verdade, nos últimos 13 anos vivemos uma revolução neste País, como nunca antes. Quem não percebe isso não merece ser ouvido. Os desvios fazem parte do processo. Vou além, quem não está gostando que caia fora. Ouvi dizer que Miami está com tarifas promocionais. Podemos seguir com a aula? Onde estávamos mesmo?

(o aluno levanta)

— Vamos ser doutrinados ou educados?  O senhor não disse que a democracia é um jogo? Um jogo de forças, onde a luta justa era por oportunidades iguais? Sua aula é contraditória com sua postura pessoal. Vou ser honesto: não é a primeira vez que eu me sinto oprimido por ter uma opinião diferente da sua. E tem mais estudantes que se sentem assim. Desculpe a ousadia, mas o senhor extrapolou sua função. Se valorizo seu conhecimento, isso não significa que aceito ser persuadido por suas certezas. Como todo mundo aqui, vim para aprender, não ser doutrinado por suas convicções.

— Melhor se sentar e calar essa boca, rapaz.

— Por que?

— Vou chamar os seguranças.

— Isso é ser intelectual progressista? É isso uma democracia?

— Na minha sala mando eu.

— Estamos numa discussão acadêmica? Sua primeira aula foi sobre maiêutica, lembra? Sócrates e o método de indução de perguntas para desenvolver o raciocínio crítico?

— Não eram bem essas as perguntas. Saia da minha aula, agora! O senhor está expulso da discussão acadêmica.

— Esse foi o melhor aprendizado empírico que já tive sobre liberdade de expressão e respeito à diversidade de pensamento. Grato mestre.

(vaias e aplausos)

(aluno senta-se e lentamente começa a recolher seu material)

O professor sai da sala e grita do corredor:

— Seguranças, seguranças!!