Inquietude de si ou Epimeleia

Inquietude de si ou Epimeleia

Paulo Rosenbaum

31 de maio de 2019 | 12h46

Golden Gate – San Francisco

 

Um experiente professor de Medicina sugeria — o tempo não pode ser administrado intuitivamente — que deveríamos organizar a duração da existencia da seguinte forma:

33% dizima periódica: família,

33% dizima periodica trabalho

33% dízima periódica, questões pessoais.

A pergunta fundamental é como preservar o espaço reservado para as idiossincrasias pessoais geralmente esmagado pelas outras demandas. Estudos mostram que quanto mais integrados em redes sociais, virtuais ou não, a sensação de isolamento e solidão é relatada com cada vez mais frequente. A psiquiatra engendrou como patológicas as categorias “anti-social”, “fobia social” e “misantropia” portanto nosologias dignas da tentação de preconizar terapêuticas medicamentosas. Porém é muito difícil afirmar se e quando estas situações requerem a aplicação de psicofármacos sem uma munuciosa investigação. Uma investigação existencial. Infelizmente nem sempre esta etapa ocorre. E ela não pode ser feita só através de exames laboratoriais. Avaliar a subjetividade e fazer os diagnósticos diferenciais pode exigir bem mais do que uma boa anamnese.

Categorias nosológicas da psique podem ser confundidas com características pessoais tais como de sujeitos reservados, com desejo de solidão, hábitos melancólicos, isolamento reflexivo, apartamentos regulares visando estados meditativos. Não é impróprio dizer que graças a elas, criatividade e imaginação fertilizam o mundo. Também é redundante lembrar que boa parte da literatura e obras artísticas icônicas não teriam vindo à luz sem o respeito à estas naturezas.

Os introspectivos, aliás, tem sido alvos de uma prática terapeutica selvagem. São casos de overdiagnosed e bullyings voluntários ou involuntários carreados pelos esteriótipos alardeados pelas mídias e reproduzidos nas salas de aula, escritório e espaços de convivência. Eles seriam, até prova em contrário, seres incomodos, potencialmente perigosos ao conjunto social. Uma acusação que se confunde com o risco. Como ousam? O crime? Recusar-se a pertencer às tribos e egregoras sociais.

São territórios inconfundivelmente distintos: casos graves merecem tratamento clínico medicamentoso, especialmente quando há sofrimento e angústia pela incapacidade de participação e integração. Por outro lado existem características que não podem ser etiquetadas com tanta facilidade. Trata-se não de moléstia, mas de atos da vontade humana. Alguns nascem com uma sensibilidade especial: o discernimento mais fino entre o eu os outros.  Há quem escolha, por vezes, cultuar a invisibilidade.  Entre a integração com a massa de sujeitos indiscerníveis ou orientarem-se ao si mesmo, alguns consideram mais aprazível experimentar emancipar-se dos conglomerados. Podem sofrer, mas ainda assim reafirmam seu direito de exercer as características pessoais.

Boa parte dos casos de individuos assim chamados outsiders não são mórbidos. Entretanto nao é incomum que suas preferências tendam a imputar-lhes diagnósticos preconceituosos, muitas vezes injustos. Não se pode esquecer da manipulação ideológica. A gravíssima investida política contra a liberdade quando o sistema de saúde soviético instruía rotular dissidentes políticos como “refusiniks” então considerada por lá uma doença mental.

Agora invertarmos o raciocínio: qual levantamento estatístico não se renderia a quantidade de pessoas perfeitamente normais e socialmente adaptadas que cometem crimes bárbaros e atos cruéis? Sabidamente há individuos perfeitamente integrados em comunidades cuja ideologia coletiva de doutrinação de sujeitos  — dos jihadismo aos supremacistas — com ideias e comportamentos incomparavelmente mais deletérios do que os vilipendiados nerds, que, por sua vez, apenas gostariam de ser deixados em paz.

Sua inadequação, antes, refere-se a um padrão construído por uma normatização que nasceu das estatísticas, de consensos psiquiátricos e de critérios vulgarizados pelo senso comum. O freak, o esquisitão, o excentrico, o zoado, o podado, o caladão, é, enfim aquele que foge do desvio padrão estatístico.

Da mesma forma pouco se pondera o quanto as multidões são melancólicas. A força que ela emana está no efêmero, nas exuberâncias dissipáveis, na transcendência horizontal, como sagazmente apontou Aldous Huxley. Dificil para a maioria inverter o trabalho do pensamento e perceber que sempre que o sujeito desaparece atrás das médias é você quem está sendo apagado. Por instantes cogite: e se a aparente instabilidade da solidão revelar um mérito oculto? E se as pessoas que decidem viver mais isoladas desenvolvessem mais sonhos e inspirações do que agrupamentos eufóricos pouco criativos?

As coletividades tendem a impor a decisão de como deves viver. A ética que deves obedecer. O comportamento que deves adotar. Se este é o preço do convívio é preciso responder: sacrificas tuas idiossincrasias pelo que?

Normalmente sacrifícios envolvem uma decisão heróica: construir a abstinência construtiva, aceitar um retiro que emancipa, ou aderir à renúncia que elege o bem comum como prioridade. Destarte, nenhum altruísmo deveria impedir o exercício das particularidades de cada sujeito.

Para os adeptos da solidão voluntária a vida social compulsória é apenas um desvio de função. Isso é, para quem sente assim, a obrigatoriedade ao convívio grupal é um substitutivo, uma tortura que ocupa o lugar da vida interior pois compete com a prioridade vital: ocupar-se de si mesmo. Para os gregos essa busca pode ser sintetizada através do termo epimeleia. Inquietude de si, ou “ocupar-se de si mesmo” e com suas próprias coisas não significa desinteressar-se pelos demais, tampouco mergulho narcisista, mas achar uma justa medida num acerto mais generoso consigo mesmo.

E o mais comum — em todas as épocas — é que o espaço de quem dá preferencia para dar voz ao espaço interior seja expulso pela vida artificial, engolido pelo excesso de arredores. Em nossos dias a agudização se dá pela falsa percepção de que estamos sempre acompanhados por algum tipo mágico de algoritmo solidário e do elogio do compartilhamento como um mérito per se.

Sociólogos afirmam que os espaços de privacidade tal como a conhecemos estão com os dias contados. Numa sociedade que vive conclamando tolerância à diversidade que tal prezar a introspecção. E enaltecer o “ocupar-se de si mesmo?”

Sua fração ideal de 33% e quebrados agradece.