Entrevista com Richard Zimler, autor do livro “O último cabalista de Lisboa”*

Entrevista com Richard Zimler, autor do livro “O último cabalista de Lisboa”*

Paulo Rosenbaum

10 Outubro 2018 | 07h29

 

CN- Conte-nos a respeito da inspiração para escrever “O Último Cabalista de Lisboa?” 

Trata-se de um processo interessante e complexo, um sistema de retornos e feed backs. Faço a seguinte analogia: eu jogava basquete (Richard tem 1.80m de altura) e não precisava ninguém para me motivar. A própria atividade era o prazer. Eu ficava motivado pelo ato de jogar bem. Comparo este processo com o ato de escrever. Exercício e treino. Às vezes, fico esperando pela frase, o encaixe no texto e prossigo a escrever de forma poética. Não fico apegado à nenhuma teoria. É o próprio ato de escrever que faz com que eu possa explorar melhor os temas e a história (Zimler costuma fazer amplas pesquisas históricas para desenvolver o enredo de seus livros). Eu faço muitas pesquisas e, por exemplo, no caso do “Ultimo Cabalista de Lisboa” estudei para saber como era a vida quotidiana das pessoas, o que comiam, quais aromas sentiam, as línguas e dialetos praticados. Costumo escrever o primeiro capítulo e observar se é o livro que gostaria de escrever. Se for satisfatório continuoComeco a escrita sabendo mais ou menos o que vai acontecer nas primeiras páginas, mas não tenho qualquer ideia do resto da narrativa. Gosto de trabalhar assim. Adoro descobrir o que o romance “quer ser”.  E adoro ser surpreendido pelos próprios personagens.  É um processo arriscado, pois eu não sei como um livro vai acabar. Mais arriscado, porém mais dinamico. Eu vou descobrindo os caminhos durante o desenvolvimento. 

Por exemplo, os escritores de livros policiais criam minuciosos planejamentos, o que, em minha opinião é um técnica que acaba levando a um resultado muito artificial. 

CN- E o papel da imaginação na literatura?

Todas as pessoas tem potencial imagético forte e profundo, mas elas não treinam. Eu procuro treinar meu imaginário. E faço isso em casa, sozinho, 2,3,6,12 horas por dia. Eu imagino cheiro e sons. As vezes este trabalho me toma anos. Pode demorar para canalizar a imaginação e a colocar a serviço de nossas potencialidades psicológicas. 

Sobre meu livro “O último cabalista de Lisboa” o que posso dizer é que a primeira inspiração veio de um livro de iluminuras judaicas que descobri em casa dos meus pais quando ainda morava em Nova York em 1989.  Estava a viver em S. Francisco nessa altura e passava férias com os pais.  Minha mãe, uma bioquímica, era uma devoradora de livros e tinhamos uma boa biblioteca em casa. E um dia descobri um livro grande, com estas maravilhosas ilustrações. Por sua vez, meu pai, um judeu laico e marxista, não gostava de nenhuma tradição religiosa. E eu, alguém com formação em religiões comparadas, que estudou budismo e outras práticas, passei a perceber o valor que existia em minha própria tradição. Não tinha ideia da riqueza, da exuberância literária dos textos, realmente não tinha ideia do que estava perdendo. Foi então que descobri, sozinho, o valor da tradição mística dentro da cultura judaica, ela continha anjos, as hagadots (histórias da tradição oral derivadas da Torá). E assim também mergulhei na história para descobrir o que era a vida dos judeus em Portugal: a conversão forçada ao cristianismo em 1497 e o massacre de 1506 sob o reinado de D. Manoel. Em abril desse ano, 2.000 cristãos novos foram mortos e queimados na praça principal. Mas ninguém em Portugal sabia deste crime contra a humanidade. E todos me perguntavam: de que massacre você está falando? E depois de dois anos um ano de pesquisas contínuas eu contrui os personagens e os modelei de acordo com o que eu queria que eles fossem. Então o datiloscrito foi rejeitado por 24 editoras, e o que eles me diziam? Que os “personagens são maravilhosos, o enredo bom muito comovente, mas não é o tipo de literatura que vende”. Obviamente passei por um longo período depressivo, considerando por que nenhum editor nos EUA aceitava edita-lo. Estava num beco sem saída. Então tive a ideia maluca de mostrar para um editor em Portugal, minha salvadora foi a diretora da editora Quetzal, Maria da Piedade, e depois de três meses do temido silêncio liguei e ouvi “E o que gostaria de ter na capa?”. Este foi o início da minha trajetória literária. Dado o estrondoso sucesso em Portugal o livro foi traduzido para 23 línguas. 

CN- Recentemente, no encontro “Textualidades da literatura judaica”do BRASA, (PUC-RIO, 2018) que reuniu vários escritores e pesquisadores, discutimos a questão da literatura judaica no Brasil e de autores judeus que escrevem em língua portuguesa. Qual sua avaliação da literatura judaica? Existe uma stricto sensu? Ou é a produção de judeus, aculturados ou não, que gera a reproduz a natureza das culturas nas mais diversas regiões e habitats?

Eu posso imaginar um escritor não judeu que redige um livro com um conteúdo judaico e também o contrário, um judeu que escreve sobre outros temas. Mas mesmo este último foi produzido a partir de uma leitura específica da realidade, sob uma ótica e uma cultura judaica na qual o sujeito foi formado. E observa-se, por exemplo, nos personagens judeus de Phillip Roth sempre uma ansiedade para pertencer à sociedade americana, esse é um dos motores para os conflitos na representação deste autor. Eu sempre tive uma perspectiva diferente, e estava consciente de que, de certa forma, eu era um marginal na literatura, e, se escrevesse algo teria que ser muito diferente do mainstream. Queria construir uma história fora da vida comum. 

CN- O que acha da frase de Isaac B. Singer e que, de outro maneira, acabou sendo repetida por Milan Kundera de que o fundamental na literatura é que o autor seja capaz de criar impasses, e, assim, conseguir manter a hesitação e o suspense?

Considero que, psicologicamente, o personagem deve refletir este caráter de hesitação, mas não acho que isso pode ser conquistado de forma premeditada. Essa força surge dos personagens. Surge dos desejos e reticências de cada um. Devem aparecer de forma natural. É a magia da literatura. Temos que acreditar na veracidade daquele que conta histórias, mesmo que não seja “verdade”no sentido estrito dos fatos. 

CN – Dois autores marcantes que te influenciaram. 

Gosto de Willa Cather e os livros de Dostoivesky, especialmente “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”. Este último mostra as traições e a falta de fé como elementos permanentes da vida humana. Gosto de um livro que consigo entrar e esquecer da dúvida se estou ou não diante da realidade. É para que o leitor perceba o que cala, o que não está sendo dito na escrita. É um outro nível de magia, e um romancista que não faz isso, não vai ser ser lido.O bom escritor não vai dizer o que o leitor sensível pode deduzir. E com isso vai estabelecer uma relação de respeito. Não é muito pedir que o autor trate o leitor como uma pessoa madura.  Outro livro marcante foi “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck, além da aride da depressão americana ele criou personagens maravilhosos, mostrando ao mesmo tempo também como a grande depressão destróia as pessoas.

CN- Pode nos contar um pouco acerca de seu processo Criativo e qual seu conselho para um jovem escritor? 

Ler os melhores escritores e o que você gosta. (Richard acusa os críticos canônicos e sua tentativa de tutela permanente do que deve ou não deve ser lido). Escrever todos os dias um pouco, nem que seja duas frases. Mergulhar no ritmo das palavras, as aliterações, os sons das palavras.

CN- Fale-nos sobre seu penúltimo livro, “O Evangelho segundo Lazaro”, que esteve em primeiro lugar em vendas nas livrarias de Portugal.

Este foi um projeto que surgiu a partir do meu conhecimento de religões comparadas. A história de Lázaro, ressuscitado por Yoshua ben Yossef, conhecido depois por Cristo. É uma história única. Assim que foi ressuscitado ele anda e não sabe onde está e uma de suas irmãs lhe diz

— Tú estavas morto.

Porém ele não acredita. E, na minha versão da história, Lazaro é um amigo de infância, um sujeito amado por Yoshua. E ele também era muito amigo das duas irmãs de Lázaro. Manter os nomes orginais em hebraico foi uma libertação enorme, pois mantenho Yoshua como um judeu e que seguindo a tradição de muitos curandeiros, usou Lazaro não só para salvar a sua vida mas também para mostrar que poderia curar. O poder espiritual que ele evidencia criou uma ameaça para os Sacerdotes e os Romanos.  O seu objectivo foi criar um mundo de justiça e compaixão, mas posteriormente sua mensagem foi distorcida pelos seus seguidores. Queria contar a versão mística desta passagem e não mais uma versão superficial. 

Richard Zimler, 62, jornalista e escritor, nascido em NY, USA, naturalizado português. É autor de mais de uma dezena de romances e livros infantis, com destaques para seu recém lançado “Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco” (com previsão de lançamento no Brasil em 2019) que hoje já figura na lista dos mais procurados em Portugal.

*Agradecimentos à Professora Lyslei Nascimento.