Esgotamento do sonambulismo

Paulo Rosenbaum

19 Agosto 2017 | 11h37

Você prometeu, sem tragédias, nem pés de guerra, que seriamos únicos e coesos. Eu te ouvi bem? Você nos disse que estávamos juntos, atentos, que migrávamos aos poucos à transição, e mais, que ela seria suave. Que a cura faria uma curva em nossa direção, que não perceberíamos o crescimento das marés ou o falso modelo das performances. Onde está o istmo que nos guiaria até o afeto, aos dias inteiros, aos pátios de obras únicas? Nada disso vimos. Testemunhamos destinos inconsequentes, não como liberdade, não como a escrita de nomes intensos, mas com prisões informais, togas incompletas, pavimentos injustos, e, enfim, um País sem diretriz. Você prometeu a paz, e nos desarmou a esperança. Deveríamos dispersar os palácios vitalícios e agora enxergamos cúpulas de hospícios. Tua lentidão concedeu pactos, sem honrar os atos. Percebo que estivemos voluntariamente inaptos. Que para teu deleite, nos cegamos. E para que? Nos diga para que? Pelo teu triunfo? Para nos varrer do mundo?  Mas eis que, hoje, senhor, acordamos mais cedo. Hoje, cresce o consenso. Tua versão de democracia sufoca. A explicação de liberdade expirou. E o que querias? Remanescentes, nosso calor sobrevive, para outro verão.

Uma dança destilou a terra, que novíssima, nos fez aprender. Somos uma antecipação improvável. E o que você não concebeu aconteceu: ultrapassamos os marcos, desfizemos a ditadura estática do destino. Para o perplexo, criamos uma alegoria contra intuitiva, inusitada até para as gerações fracas. A explosão da qual falamos é espontânea. As cartas formaram castelos sem reis. Não quer ouvir-nos? Pois mais uma profecia: eis a era do esgotamento do sonambulismo. Quando todos, ao mesmo tempo, descobrirem que tuas criticas eram auto elogios. Por isso, prometemos, não falaremos mais de ti. Teu reino, inculto, é um passado apagável. O nosso? Está sendo esculpido nas letras. No movimento dos parques. Nos passos largos da areia molhada. Por isso, as peças de malabarismo, obsoletas, já caíram. A opressão, desativada. Se já houve felicidade, fixou-se na memória. E, só por isso, agora, é o impossível que se comprova, chegou a hora