Eu que me enganava com a esperança.

Paulo Rosenbaum

30 de junho de 2014 | 23h18

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      Eu que me enganava com a esperança.

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe?

Pedir perdão.

Por que? Por ser adulto. Por não ter feito nada para impedir que as coisas chegassem a esse ponto.

Sei que pode estar muito frio ou muito calor. Sei do medo e da fome. Como qualquer um que é arrancado dos pais, vocês estão aflitos, descuidados e perdidos. Mas é bom que saibam, vocês não estão órfãos.

Estamos todos aqui, vigília total. E não só rezando, nem pedindo, nem implorando. Estamos naquele estado no qual acreditamos mais ainda numa proteção sobrenatural. Parece maluquice, mas não é sobre isso que queria falar. Queremos que vocês saiam logo daí. Sei que é fácil falar. Mas é preciso que vocês saibam que uma hora dessas vocês sairão da caverna, da toca, do buraco. O destino de todos os cativeiros é a liberdade.

Por isso, preciso contar que quando vocês voltarem, além de cobertores, comida preferida de cada um e roupas frescas, nós vamos nos esforçar como nunca. Como nunca, porque precisamos reconhecer que nós não fizemos o máximo. Não só por não poder enxergar e proteger vocês, mas, principalmente, por não termos chegado à paz. Sem paz, tudo acaba sendo distorcido, como, por exemplo, eles terem levado vocês para longe de nós.

Não sabemos se eles são uma organização, terroristas ou milicianos. Nem mesmo se são aqueles homens que geralmente vivem disfarçados de gente religiosa, os que aclamam a luta, aqueles que justificam o indefensável.

Não sabemos se eles estão deixando que vocês vejam os jogos, ouçam notícias, ou recebam jornais. O que importa mesmo é não esquecer, nem por um minuto, que vocês estão aqui, conosco, grudados em nossos corações e mentes. E mesmo que o mundo ainda não tenha feito o devido esforço para encontra-los, e que muitos se esqueçam do que está acontecendo, é bom que vocês entendam que a maior parte de nós pensa em vocês, dia e noite.

Já li que o mundo só terá nova cara quando os filhos dos outros tiver a mesma importância que os nossos. Vejam como é importante não generalizar: saibam que um garoto palestino escreveu e organizou uma petição para que quem levou vocês, entenda que não conta com o apoio dele. Ele não pertence à vossa etnia, classe social, provavelmente não é nem mesmo dessa região. Sua tribo não poderia ser mais distante. Olhando de longe, um inimigo.

Por que fez isso? Para que se arriscou? Por que correu o risco de ser a voz dissonante? Porque sabe o valor da liberdade? Arrisco dizer que é porque ele enxerga vocês como iguais, crianças, adolescentes como ele, jovens como ele.

Ele, mais do que povos contaminados pelo ódio e viciados na guerra, sabem que vocês não tem nenhuma culpa pelo jogo que os adultos escolheram jogar. De algum modo, compreendeu a grande insanidade. Para ele não importa que a maioria ao seu redor ache natural sequestrar crianças. Que há quem comemore execuções. E por ter compreendido isso talvez ele tenha feito o que milhões deveriam fazer sempre que gente inocente sofre: recusar a loucura. Mesmo aquela naturalizada pelas maiorias seletivamente cegas.

Isso não significa que possamos nos dar ao luxo da ingenuidade. As vezes, para conter loucos, a força é uma necessidade, pelo menos até que a crise passe ou até que se descubra outro antídoto para a peste emocional.

Deixo meu abraço e renovo meu pedido de perdão. Para que vocês saibam que não importa o que estejam fazendo, nem para onde estejam levando vocês: têm muita mais gente aí do que vocês podem enxergar. Não vai demorar. Muitos outros vão se unir a nós. Muitos outros vão saber. Milhões terão coragem de escrever. Diversas nações e torcidas. Incontáveis gritarão por aí que nenhuma religião, tribo ou País, vai ser capaz de manter para sempre os argumentos que destroem a paz. Fiquem conscientes que vocês hoje a representam. A liberdade de vocês pode significar mais que o alívio do reencontro, pode representar a abolição de maus decretos e prisões. A liberdade de vocês poderia movimentar o que esteve parado há muito. Mas, se não, se a tragédia tiver que sobrevir que recusemos que vocês sejam alçados como troféus. Que sejam a justificativa para alimentar o ciclo. Que adultos assumam seus desejos sem disfarçar suas bandeiras. Que arquem com as consequências de suas decisões, facões e alçapões. Que não se escorem em quem não quer mais ser causa. Que espalhem o sangue até que o vermelho esqueça-se da vida.

Posso sentir daqui. Percebo que seus corações estão pesados. Sei que choram, que soluçam, que pedem pelos seus pais. Se há algum bom motivo para que vocês se alegrem? Daqui em diante redobraremos os esforços para que nenhuma criança do mundo sofra pelos erros dos adultos. Não será suficiente? Se a tragédia sobrevir é porque o desfecho decretado pelos adultos triunfou. Que assumam seus instintos e as consequências. Que derretam o chumbo sem usar os que não podem falar. Quando os Senhores da Guerra falam mais alto que o Senhor da Paz, ninguém pode mais falar em seu nome.

Ps- Como lembrado por muitos leitores: um minuto silêncio pelas crianças sírias, afegãs, nigerianas, iraquianas e iemenitas e todas aquelas que, neste instante, sofrem e sofrerão pelas ações de adultos.