Expropriação da vontade

Expropriação da vontade

Paulo Rosenbaum

10 de novembro de 2013 | 13h46

 



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  Enfim uma autocrítica. Mas a lupa desvela tudo. Não era de conteúdo, mas de estratégia. Existem generalidades escancaradas para as quais não paramos para pensar. É para além do incrível que depois de Hitler e Stalin, em seus respectivos programas políticos, e só para pegar os mais sanguinários, sobrevivem adeptos do totalitarismo e do culto à personalidade. Não importa quais as massas comandadas, os desvios, a intoxicação ou os justificacionismos, são os mesmos. Os desmandos, a impunidade corporativa, a aniquilação da oposição, as políticas fiscais imprudentes e confiscatórias, e, por fim, a criminalização do sujeito individualista e empreendedor (o burguês inimigo) que se opõe ao Estado benévolo e libertador.

Tanto faz se citam Marx, Keynes ou nem sabem citar, só o que lhes falta é a hegemonia absoluta da coisa pública, pois que conseguiram o impensável para uma nação tão plural: a partidarização das instituições. Agora o importante é voltar o discurso para os jovens e nos agonizar com o discurso de mártires injustiçados. O que dizer para as gerações mais novas: que os embargos foram infringentes, que o país está sendo passado a limpo ou simplesmente mostrar que quem ainda manda é uma só e a mesma pessoa? Ou seriam duas?

O verdade que o cinismo da esquerda selvagem – agenda que conservou o nome por inércia e da qual sobreviveram traços tênues de esquerda e muito de selvagem — é distinto do da direita com crise de identidade. Ainda que a diferença para outras visões políticas seja residual, nota-se o vigor no ranço, na persistente acusação de reacionários contra todos que ousam resistir a uma hegemonia em decadência.

Mas é claro que ele prefere auto proclamar a paternidade de todos os avanços sociais na conhecida fórmula “nunca antes” enquanto os demais estão ou acuados pelo populismo franco-atirador ou engessados pelas normas das licitações públicas.

O discurso ideológico não tem dúvidas em sacrificar qualquer coisa – e ai mora o perigo – para manter os projetos azeitados com verbas públicas. Não é bem que esperam que as contradições do capitalismo o enterrem, eles querem asfixiá-lo com as próprias mãos, para fazer um novo sabe-se lá o que.  Sim há uma esquerda,  que sucumbiu num estranho silêncio tácito. Não há mais frentes, coalizões ou uma rede republicana. Sumiram os estadistas. Os dinossauros vivem da memória daqueles que lutaram para derrotar a ditadura. Então era só uma questão de quem exercia o autoritarismo. O autoritarismo fica na vontade mas, quando pode, emula o mesmo arcaísmo, o mesmo ranço ancestral, que contém elementos da arrogância e da auto-referencia. Com o neo-liberalismo derrotado, o inimigo solitário das liberdades ficou ao encargo do populismo sufragista cuja única militância de fato é permanecer governando.

Com a sistemática expatriação dos críticos e a consequente demonização da capacidade dialógica, quem ainda fica perplexo com a bagunça?

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