Expropriação do futuro

Expropriação do futuro

Paulo Rosenbaum

28 Novembro 2015 | 23h11

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Enquanto o governo federal vive com os “nervos à flor da pele” um contrapensamento persiste: “e quanto a nós, o povo”?  Quando os golpes vem de todos os lados, quem consegue falar de outro assunto? O golpe não é mais aquele que perfura o osso, nem tramas urdidas nos bastidores, é o que nos disseca para descortinar a expropriação do futuro. A maioria dos eleitos destrata quem não pode se defender. Mas há um golpe maior, aquele que ameaça o direito à vida. Ao abandono da saúde pública segue-se o descaso com a segurança pública. Até quando o nociva seita do politicamente correto habilitará o protagonismo de minorias populistas? Submissos à irresponsabilidade o déficit mina a República. Ou alguém enxerga justiça quando a coação modula o mundo? Quando não há mais rigor em nada? Quando milhões estão em prisão domiciliar informal? Sim, precisamos admitir, fora a asfixia do bioma a céu aberto, temos estatísticas de uma tragédia de Paris por dia, 143 assassinatos a cada 24 horas. Descontada a acefalia do poder, há uma gravíssima distorção em curso. Decorrente dela, mas muito mais ampla daquela operada no campo político.  Se não é uma crise do capitalismo, (e não é) testemunhamos um espasmo das sociedades materialistas? Ao menos diagnosticaremos onde é que está o fracasso?  No descarte do valor das tradições, para quem devemos a construção da civilização ocidental? Ou a falência é o resultado da resignação crônica? Qual foi o ardil que nos impeliu à descrença? Não há Supremo que nos devolva o que nos foi retirado, pois não é mais o País que está sendo roubado: estamos sendo subtraídos dele. Aqui, a ordem dos fatores altera a reflexão. O País policial é espelho de um território sem leis. O Estado totipotente afronta a cidadania. As instituições, por mais sólidas que aparentem, não tem o poder mágico de prescindir dos homens que as compõem. São portanto homens, sem rostos, sem máscaras, sem culto à personalidade, que poderiam fortalece-las. Se o presente é caos anunciado, refaçamos toda trajetória. Se queremos ir além do império dos juízes, se é essencial subjugar o senso comum, exigiremos outra regeneração. Algum valor supra ideológico, republicano, sobretudo generoso, para nos alinhar com um outro futuro. Isso requer mais que impeachment, renuncia, ou reformas para obstar as mudanças climáticas: exigirá a transformação da ordem. Como é o imponderável que regula o mundo, a novíssima resposta viria de onde menos se espera. De uma geração que articule outra perspectiva? De gente que entende o bem estar como prioridade máxima? De uma reinserção de valores para bem além do acúmulo de matéria? Uma novíssima pedagogia? Enquanto conservadores e progressistas se filmam num inacabável selfie, outra via deve nascer para consertar as coisas. Já que ninguém pode encomendar uma nova Renascença, nem decretar outra era humanista, poderíamos rezar juntos e correr o risco de ser atendidos.

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