Fisiologia da saudade

Fisiologia da saudade

Paulo Rosenbaum

04 de novembro de 2019 | 12h00

 Para os pais cujas filhas imigram.

 

Quando alguém sai de casa, todas as vidas mudam. Mas, como na máxima de Lavoisier, nada se cria. É só uma transformação que todavia nos impõe a ilusão de viver sob o novo. Se chegou a hora de viver alhures que seja sob nossas bênçãos. Que seja sob o civilizado desapego dos que ficam. Só não seria cortês exigir-nos superar a melancolia. Ela, jamais exaltada pela medicina, a arqui-inimiga da psicofarmacologia.

Como bom estoico passo através e prefiro não notá-la. Ignorar voluntariamente segundo me dizem é a atitude tipicamente imatura. E daí? Quando se trata das questões viscerais, o critério de avaliação do comportamento  muda radicalmente. Para esquecer a distância tentamos manobras dissuasivas, usamos leitura ou música. Inútil. Tua filha não está lá. Não mais. Nada de trágico, apenas mais um caso de imigração. Mudou de ares? Voou rumo à outra civilização? Afinal, não era isso que formalmente  desejamos para eles? Que a liberdade tenha êxito? Que a autonomia supere os laços de filiação? Que a emancipação seja um principio permanente? Que os sonhos adquiram autodeterminação?

Ei-los.

Mas é ai que o sofrimento não encontra paralelo nas escalas psicométricas. Quando as racionalizações falham. Mas e quanto aos contatos de skype, mensagens, telefonemas, instagrans e demais instantâneos da era? Garanto, longe de aliviar, é então que dói mais, já que escancara uma evidência: o sofrimento sequer diz respeito à ausência.

Afinal o que é sentir falta?

A palavra “saudades”, no plural mesmo, não é bem uma palavra. Trata-se da cortina que descerra o glossário inteiro. O sentimento-idioma, uma sensação polissêmica. A analogia com a expressão “Mal du Pays” é só mais uma aproximação longínqua. Não traduz, e ainda trai a confissão da lacuna.

Saudades não diz sequer sobre a falta que nos faz quem queríamos que estivesse por perto. Saudade é uma idiossincrasia, uma segunda pele que sobe à superfície para aguçar a percepção do insubstituível. Aquela que não está pronta para receber reciprocidade ou recusa.

Mas, e se for mesmo preciso amenizar o peso do vácuo impreenchível? E se ficarmos com a efêmera doçura  da recordação?  Faz sentido usar a melancolia para sublimar? Aquela sobre a qual Robert Burton, sob o pseudônimo de Democritus Junior, escreveu no século XVII?

Em seu tratado  “Anatomia da Melancolia” sua exploração vai do universo filosófico ao caráter poético inspirado na nostalgia e suas várias influências na fiilosofia, literatura e medicina. Qual seria o mérito em “extinguir as palavras nos lábios”? E aqui chegamos ao humor ciclotímico do poeta.

Afinal qual seu leitmotiv?

O que impulsiona o escritor é encontrar aquilo que Paul Ricouer imaginou ao escrever “só há uma forma de dizer as palavras certas”. Mas e se ele não as tiver? Não as certas. Decerto, as imprecisas. Sem dúvida, as impertinentes. Aquelas que cortam a razão para simular uma vida paralela. Junto com as que atravessam o texto para extraviar o leitor e joga-lo, junto, longe, ao percurso ignoto. Aquele recesso sem localização única que ainda perturba o sono profundo da neurociência. Aquela que, apesar de toda tekhné ainda não explica, por exemplo, a consciência. A enteléquia que zomba da arrogância dos que dizem pensar por nós. Que falta faz aos políticos, homens de Estado e intelectuais acadêmicos a penetração num Universo que nunca conhecerão. Aquele onde nem sempre a teleologia é o triunfo, a vitória ou o sucesso. Aquela onde só  o fracasso pode oferecer uma experiência inédita: a ausculta dos demais.

Entretanto é nela que penduramos nossos roteiros. A ludica cabra-cega que nos arrasta destino adentro.

É isso filha.

 

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