Fixo no ar.

Fixo no ar.

Paulo Rosenbaum

05 de agosto de 2022 | 11h12

Um ano, hoje.*

Maurício Rosenbaum O.s.t. 2003

Um ano no tempo suspenso. Faz um ano hoje, pai, e tua face ainda se apresenta como um símbolo. Ontem o reconheci examinando teus quadros. Tua fronte límpida assim como tuas mãos, firmes e claras, sempre indicando um caminho pouco plausível. E daí, não é? Quem pode lembrar da sequência de tirocínios non sense, danças improvisadas na qual o équipè era perfeito? Tua presença é uma ausência audível à distância.

Podem alternar Noel Rosa ou Mahler, Adoniran Barbosa e Beethoven, Samba de Orly e Strauss. E seja lá onde você foi se ocultar de nós, em cada um deles percebo tua regência,. E me pergunto, por quê? Às vezes, durante um jogo dos alvinegros ou quando um filme mostra algum potencial filosófico pego o telefone para ligar. Dura um átimo. Uma vertigem de instantes que impacto o mundo. A tontura então chega quando antecipo: não haverá resposta alguma.

Não ?

E é então me lembro o carrossel que passou para te dar carona à terra, como reclamou Hamlet, terra da qual ninguém voltou. E qual terra será essa? Assim você me sondava como se eu soubesse sobre o assunto mais do que você. E é ali que aparece clara tua intuição, sobre nossas vidas, sobre aqueles que só vivem sem conseguir existir. Você sabia exatamente, com detalhes, sobre o reino que te aguardava.

Foi esta a pequena chave confidenciada a nós, feita da mesma varinha verde eternizada por Tolstói.

Você nos legou o que pode preencher o vazio dos teatros. Que ocupa o silencio sem um único som. Não é um testamento, é o aroma que não deixa rastro. Como uma infusão contínua de pequenas amostras do valor dos horizontes. Tanto faz a distância. E como não existe autoajuda, o que você nos revelou foi a esperança do sentido. E o sentido pode estar em qualquer lugar. Será preciso achá-los agora, para imaginar um futuro. Um futuro distinto daquele que os desesperados projetam.

E o sentido está até, ou principalmente, nos teus arranjos anárquicos, nas piadas com improvisos musicais, palavras invertidas, batucadas que vibravam as mesas, meias cortadas para aliviar a pressão, nos impérios que comandavas da tua poltrona, e, também, mas principalmente, na solidez de uma confiança insólita, irracional, imotivada, mas absolutamente viva. Era assim que contaminavas os arredores, com uma inexplicável violência. Há violências benévolas, assim como existe, para estranheza dos céticos, vigor na fé. Um ano hoje e se a perplexidade foi arrefecida, o vácuo continua provocando perguntas. Mas, é quando ele mais nos pressiona que aceitamos um destino que sempre esteve prescrito, ainda que jamais compreendido.

E se hoje é mais difícil seguir teu exemplo com risos, temos mais presente ainda que o espaço foi tomado por tuas memórias. São elas que nos movem às próximas páginas, as abertas e as intonsas. As que unem e as que precisamos separar. Hoje rasgo uma delas para que você renasça entre nós, como as tintas não erradicadas.

E como toda letra perpétua, teu nome está, agora, fixo no ar.

Yortzai*

 

 

 

 

 

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