Geração espontânea e terroristas avulsos

Paulo Rosenbaum

14 Outubro 2015 | 11h21

Quais as etapas que um sujeito deve percorrer entre entrar em seu veículo, escolher o alvo, acelerar contra este a uma velocidade significativa, abalroar uma ou mais pessoas, descer do veiculo e golpear à faca, adaga, lâmina ou machadinha até acabar com uma vida? Há um terrorismo exposto e um latente prestes a irromper. Quais as chances de que uma epidemia homicida atinja várias mentes sincronizadamente? Pois os cidadãos de Israel tem sido alvo de múltiplos e sistemáticos ataques terroristas. Os fatos, porém, tem sido expostos de uma forma surpreendentemente neutra. Sob as vozes monotônicas e testeiras eletrônicas da mídia televisiva, tem-se a impressão de que os ataques precisam ser naturalizados. Terroristas avulsos surgiriam às dezenas ao modo de geração espontânea. Ações terroristas ex-nihilo se propagam sob a ação de esfaqueadores em transes assassinos. Da forma como nos apresentam os eventos, a impressão é que, subitamente, uma parte dos palestinos e árabes israelenses — os perpetradores dessas ações contra alvos civis inocentes — tiveram, ao mesmo tempo, a mesmíssima inspiração.  A sensação quase subliminar que se pode ouvir ao largo das transmissões é ambígua: “um horror”, e ao mesmo tempo “devem ter feito algo para merecer”.

Quem não reconhece que a raiz profunda desta e de outras crises passadas e futuras são os erros políticos recorrentes dos governantes israelenses e palestinos em achar uma solução para a tragédia que se abate sobre os dois povos? O perturbador é que parte significativa da mídia insiste em pulverizar os atos nitidamente terroristas como “sublevação legítima”, “insurgência política”, “resposta à ocupação”e, mais recentemente, o criativo “fúria contra a proibição de fiéis muçulmanos rezar na esplanada das Mesquitas”. A notória má vontade da mídia mundial com Israel e seus habitantes teria origem num antissemitismo latente? A desonestidade intelectual estacionada em acusações irresponsáveis como a de que ali vigora um “regime de apartheid”? Essa latência  floresce irrigada a cada mínima gota. É como se um argumento subliminar estivesse a postos para ser sacado contra a mítica pré condenação judaica. Manchetes omissas diárias — sem contar as abertamente  judeofobicas dos jornais árabes e iranianos —  estampadas nas páginas de jornais terminam inculcando uma percepção completamente distorcida da realidade social e política da região.

Abundam questões territoriais, jurídicas e culturais em permanente disputa, mas quem é curioso ou cultiva um pouco de amor à análise política sabe que Israel é um dos países com maior liberdade religiosa e de gênero em todo o mundo, e, decerto, o mais multicultural entre as nações do oriente médio. E, com todos os defeitos inerentes implicados, uma democracia estável. Pois as pessoas deveriam também saber que o desenvolvimento econômico nos territórios palestinos não estão entre os piores da região. E, a despeito de taxas de escolaridade altas, o que será que vem se ensinando aos jovens nas academias palestinas?

Não há nada de fortuito ou coincidência mística que o novo ciclo de ataques tenham se iniciado alguns dias depois do discurso do presidente da autoridade palestina Mahmoud Abbas, quando declarou que considerava nulos os “acordos de Oslo”. É sintomático que o anúncio tenha sido feito num momento histórico no qual o relevância do conflito esteja em evidente declínio na agenda dos países ocidentais. Com tópicos quentes como guerra civil na Síria, estado islâmico, Ucrânia e indícios da retomada de uma novíssima guerra fria, o imbróglio palestino-israelense não é mais prioridade para ninguém. Abbas captou a nova realidade e talvez tenha pretendido instrumentalizar uma escalada para recobrar a relevância perdida. Porém, a conclamação ao ódio e à indução ao terror, ainda que cifrada, é um novo e perigoso precedente na escala de equívocos políticos. No reino dos justificacionismos não há, nunca houve, solução para contendas. A busca pela pacificação é provavelmente um dos impulsos mais contra-instintivos em nossa espécie. Quando não existe ninguém realmente pensando em paz, o vazio pode vir como signo de guerra. Oxalá o futuro nos reserve menos lamentos e mais civilização.