A razão que nos destrói.

Paulo Rosenbaum

27 Outubro 2017 | 19h54

Há um metabolismo que nos percorre por fora. Paralelo aos corpos. Há um modo de ver as coisas que não é discutível. Que nos impõe seu fluxo pelo ritmo aflitivo com que anda. Pela dor que vem em salvas. Pelo eclipse das passagens. E para que? O alcance da vida sem mundo interno vinga-se das certezas precárias. Por isso, e só por isso, o dia precisa de deslizes, de pequenas amnésias, de traumas curativos, de excentricidades regulares. E não, não são só as ofensas da irracionalidade que precisam de combate. Há uma razão que nos destrói. As avalanches psíquicas da Terra não justificam o encolhimento das impressões. Nem a hipertrofia do mundo objetivo contra a arte e os artistas. Ou a síntese da matéria contra o análise dos romances.   Seria isso se o senso comum não tivesse a priori definido o que devemos ou não sentir, se a ordenação prática não tivesse imposto limites à imaginação. Estamos sem  horizonte e não é só por falta de lideres. Nem porque esta safra de estadistas não nos diz mais nada. Ou porque os magistrados nos mostraram dosimetrias maniqueístas. Estamos sós, mas não é essa a dificuldade. O trágico é não conseguir assumir que nos isolamos das responsabilidades, pelos atalhos que nos enfiamos, pelos desvios que nunca enfrentamos. A culpa, não é da nossa civilização, nem da cultura que forjamos. Se há uma, culpa, deve ser exclusiva e intransigentemente individual. Mas sonhamos acordados com um principio do prazer assoprando: isso nunca acabará. É só ao outro que podemos contar nossas histórias.  Só um outro para poder ouvir que não temos direito à paralisia. Nem nos é dado ficar à mercê dos governos, dos tiranos ou das prisões de antanho. Exigiríamos mais de nós mesmos se soubéssemos que tudo termina, já, agora, neste instante? Se o varejo das relações sumir teremos só atestado mais um isolamento. Nossa vida impregnada com a obsessão terminal. Nosso impacto mínimo na galáxia. Nossa irrelevante missão no cosmos em qualquer coletivo que se imagine. Mas, e se antes soubermos que há uma fala, um argumento e uma mão que nos desfragmenta? Que nos segura e sustenta sobre o abismo e seus resumos? Que nos apoia quando nem sonhávamos com amparo. Seremos sempre atentos aquelas sombras que nos iludiram, mas não aprendemos a reconhecer a escuridão que as escondia. Por isso há um dedo que dirige – invisível que seja — os apontamentos dos destinos. As desatenções com que singramos os caminhos. O esquecimento do fim e da morte com vinho. Estamos a um só passo de saber que nosso lugar nunca foi este, e mesmo assim, contra tudo e contra todas as evidencias, persistimos na esperança.  Esperança de que tanto a salvação como o completo extravio não nos expulse da condição humana. E que, perder-se no afeto, não é muito distinto que encontrar-se com a redenção. Alguma delas.