Impossível: eu escuto teu nome

Impossível: eu escuto teu nome

Paulo Rosenbaum

18 de agosto de 2013 | 11h55

 

Nasa divulga imagens de planeta rosa

Quando a realidade parece inapreensível, recorramos ao impossível.     

Tomemos este, que é um dos seus mais significativos e sub explorados verbetes do dicionário.  Até o suposto defeito vira virtude na voz polissêmica dos glossários.

Deduzamos sozinhos examinando a rubrica “impossível”: áporo, sonho de louco, pedra filosofal, vôo de um boi, o irrealizável, não haver possibilidade de espécie alguma, querer sol na eira e chuva no nabal, prende la lune avec les dents, incendiar o Amazonas, meter o Rocio na betesga, tirar leite de um bode na peneira, carregar água num jacá,  abarcar o céu com as mãos, assar qualquer coisa no bico do dedo, extinguir-se no planeta o calor central, acabar no céu a rotação dos astros, querer ter o dom da ubiquidade, inacesso, inabordável. 

O impossível só pode ser o que acabamos de realizar, o possível visto por alguém fora das nossas órbitas.

Em outras palavras, só o impossível é justo.

 

Impossível: eu escuto teu nome

 

Sob o pó que sobe

Escuto teu nome

Sob o desvio das línguas

Sob a conjugação dos mares

Sob bloqueio das ondas

Eu escuto teu nome

 

Sob a marcha dos acorrentados

Sob exércitos vencidos

Sob a exaustão das setas 

Eu escuto teu nome

Sob o plátano fixo

Sob a cadeia de choros

Sob o destino sem eixo

Eu escuto teu nome

 

Sob órbitas de passagem

Sob a miragem do término

Sob incêndio dos rios

Eu escuto teu nome

 

Sob o sol oceânico

Sob a divisão artificial

Sob a palafita abissal

Eu escuto teu nome

 

Sob a fome da África

Sob o gelo degradado

Sob o coro dos escravos

Eu escuto teu nome

 

Sob o impulso da América

Sob a exaustão colonial

Sob a forca da justiça

Eu escuto teu nome

 

Sob as botas da Europa

Sob a lente dos carrascos

Sob os massacres sem autor

Eu escuto teu nome

 

Sob a surdez do poder

Sob a imensidão sem bordas

Sob fronteiras apagadas

Eu escuto teu nome

 

Sob a aflição do urânio

Sob pétalas encolhidas

Sob a radiação beta

Eu escuto teu nome

 

Sob o parque em fumaça

Sob o cascalho das selvas

Sob a cinza das feras

Eu escuto teu nome

 

Sob a morte iminente

Sob o carbono dos museus

Sob esconderijos

Eu escuto teu nome

 

Sob o solarium das estrelas

Sob a claraboia do cerrado

Sob a confluência de sonhos

Eu escuto teu nome

 

Sob a anulação do branco

Sob homens transparentes

Sob o risco de desaparecer

Eu escuto teu nome

 

Sob vozes cortadas

Sob caudilhos reunidos

Sob assobios dos humilhados

Eu escuto teu nome

 

Sob as florestas sem guias

Sob mantas de asfalto

Sob o estalo das rochas

Eu escuto teu nome

 

Sob a concavidade das formas

                                                                                                                                     Sob convite dos sentidos

Sob o elástico dos lábios

Eu escuto teu nome

Sob toda rarefação

Sob multidões apagadas

Sob armas alinhadas

Eu escuto teu nome

 

Sob a casca da fachada

Sob a fornalha do desejo

Sob a superfície do ínfimo

Eu escuto teu nome

 

Sob as unhas do predador

Sob manchas da honra

Sob o ócio dos réus

Eu escuto teu nome

 

Sob cada passo retido

Sob o preso liberto

Sob o imigrante desdito

Eu escuto teu nome

 

Sob a ruptura iminente

Sob a revolução dos corpos

Sob a ruína do poente

Eu escuto teu nome

 

Sob esperança

Sob a areia do tempo

Sob a casca da duração

Eu escuto teu nome

 

Sob a sombra reduzida

Sob ombros de amantes

Sob o adorno dos errantes

Eu escuto teu nome

 

 

Sob o nulo que fala

Sob o murro que cala

Sob as danças do horror

Eu escuto teu nome

 

Sob a paz travada

Sob casas ameaçadas

Sob o fim anunciado

Eu escuto teu nome

 

Sob os túneis acesos

Sob a pupila fixa

Sob a vida suspensa

Eu escuto teu nome

 

Agora enxergo, além do nome

Ouço o sempre e o nunca

E sob a audição do impossível

Uno-me.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.