Imprescindíveis, como textos

Imprescindíveis, como textos

Paulo Rosenbaum

25 Dezembro 2018 | 23h42

Franz Kafka 1914 (Sonhos)

Em muitas regiões do País e do mundo as pessoas vivem em função das marés. A maré baixa e a maré alta representam visita aos bancos de areia, praias e ilhas temporárias, navegabilidade fácil ou encalhe, múltiplas perspectivas de aproveitamento do tempo, do turismo, lentidão ou velocidade, enfim do ritmo de vida. A ritmicidade ditada pelas circunstâncias da natureza foram sendo deixadas de lado pelos habitantes das urbes. Ao menos assim eles pensam. Mas isso não passa de negação da nossa tempera biológica, toda ela regada por ciclos determinados por noite e dia, fases lunares, incidência solar, oscilações barométricas e outros fenomenos cósmicos. A astrobiologia e a cosmobiologia nos regulam e aos nossos corpos, apesar de, na maior parte do tempo, não sermos capazes de detectar a extensão destas influências. O surpreendente é que elas não nos afetam de forma homogêna, mas sim de acordo com características idissincrasicas.

Apesar das turbulências externas comuns as marés internas nos sacodem de um lado para o outro. A partir de causas  gerais cada um responde de uma forma. Claro que a ciência nos aponta as causas fisiológicas das instabilidades humorais.  A secreção de hormonios que estabelecem aquilo que conhecemos como ritmo circadiano — o timing que determina nosso ciclo de sono e vigilia de acordo com a atividade da pequena e vital glândula chamada de supra renal. Os oceanos de dentro nos movem como embarcações, empurrando e ondulando nossos estados anímicos, através de encontrões n’agua, solavancos internos, salinidade excessiva, paisagens curtas e panoramas desoladores.

Com efeito, toda esta turbulência acaba nos arremessando ao campo dos marinheiros experientes, e, as vezes. lançam o navio todo contra terrenos acidentados. Naufrágios nunca são inesperados. É quando percebemos o inexorável: estamos sempre sujeitos a uma natureza interior que interage, interfere e modifica de volta o meio exterior. No entanto, o mais notável, é que mesmo sob a influência de todos estes fenomenos coletivos, a resposta é sempre individual.

É só aparentemente desolador que nossa solidão acabe sendo a única estabilidade que conheceremos em profundidade. E mesmo nos mergulhos coletivos, nas comemorações sociais, dentro dos grandes aglomerados, nos grupos familiares, nas confraternizações universais da cidadania, o que perdura é uma respiração, única, irrepetível:  a sua, a de cada um.

A solidão é, portanto, a única melancolia justificável. A única característica que acompanha essencial e inapelavelmente todo sujeito. Do berço ao sepulcro. Do começo até o último fim. Independentemente dos estremecimentos relacionais, das estradas vicinais estreitas, dos mangues hostis, dos cardumes que fluem pela correnteza. E da natureza, que segue alheia e sem nenhum senso de responsabilidade ou de obrigação.

Notem que o astrolábio afetivo do navegante fixa-se sempre sob o patamar do afastamento. A verdadeira roda da fortuna gira, em direção à impossibilidade de futuro. E segue distante dos homens que vivem buscando egregoras, fazem alianças para fixar rotinas de convívio, e, desesperadamente, buscam alimentar a fantasia para sentir que, mesmo distante de qualquer princípio da realidade, estão próximos da humanidade, protegidos do isolamento. De algum modo, um dos sonhos mais vulgares conhecidos é que sempre estaremos cercados por outras pessoas. É compreensível que se alimente tal ilusão, assim como é essencial — conforme nos apontou Ersnt Becker — negar a morte para seguir adiante.

Nosso impeto imaginário foi adiante, nos arrastou ao ponto de achar que somos ou seremos compreendidos. Trata-se da quimera em prol da adaptação mais astuta já inventada. Mesmo assim, não nos ceguemos ao leitmotiv que nos empurrou até o presente. E esta perspectiva é, inegavelmente, um mérito exclusivo da literatura. É ela que nos informa que só há uma forma perfeita de utilizar as palavras, como já escrevera Paul Ricoeur. Portanto, se ficar provado que não somos ou nunca fomos essenciais para ninguém, assim como as palavras, permanecemos imprescindíveis, como textos.

Alguém há de nos ler.