Impressões intermináveis de uma viagem quase finda

Impressões intermináveis de uma viagem quase finda

Paulo Rosenbaum

16 de julho de 2022 | 19h04

Impressões intermináveis de uma viagem quase finda

 

Certos dias tudo que poderia fazer sentido parece terminar em estilhaço. Como uma marreta que desce violenta sobre um vidro temperado. Sem lascas, colhi os fragmentos um a um, como se fossem pequenas amostras do que poderia ter sido. Desisti de quebra-cabeças. E aboli a imposição do ritual como anteparo para as vicissitudes da vida social. A política já não me atrai. O que nos motiva quando estamos mergulhados em rotinas mecânicas? Acabo de ver um dos presidentes americanos passar aqui, bem debaixo da minha janela, na rua Zeev Jabotinksy. Vi, e apesar da paralisia urbana à qual Jerusalém foi submetida, não atribui o menor significado nem ao sujeito, nem ao que ele representava.

Então, tive que me perguntar no que ainda acredito?

Se os valores, títulos e o poder perderam o significado, outros podem ter emergido em mim: os significados substitutos. Esforços para uma vida não fracassada é o desejo do filósofo. O paradoxo: e se o próprio desejo for a principal matriz do sofrimento?

A realidade tem um perfil incoercível, não se pode reduzi-la nem ao desejo, nem às expectativas. O muro ocidental é um legítimo intermediário que conduz as mensagens. Que atende bilhetes e escritos criptografados. E, conforme eu me distanciava da ilusão do muro destinatário, me vi alienado da realidade imediata.

Porém naquela tarde havia descido os degraus da ingenuidade, e, consequentemente rumado à desilusão. Costumamos confundir ceticismo com maturidade. Mas e se a fé for um fenômeno inimputável? Que simplesmente não cabe nos critérios, nem nas categorias estanques das racionalizações. Não se adequa aos sistemas clássicos de notação. E se a fé for uma expectativa qualitativa, de difícil  abordagem científica? Ela pode ser muito bem uma desrazão aceitável. Por que ela então insisti tanto para vigorar em nós?

É, no entanto, seu antípoda natural, o ceticismo, que nos ensina uma outra coisa. Para além da cautela, no que é que colocamos ou não confiança? O ceticismo nos ensina que nada esperar também não nos trás conforto. Então como decidir no que acreditar?  Discernir não mais entre verdadeiro e falso, mas entre o natural e o artificial? Entre originalidade e cópia?  Se, de fato vivemos em negação, fica ainda mais claro que um sistema de crenças é tão vital quanto à insistente recusa sobre nossa efemeridade. A fé, neste caso, não passaria de uma substituição adaptativa para nossas requintadas estratégias de negação.

Será?

Foi quando sai e andei até um parque que deparei com uma pequena pérola semi enterrada no solo  Bijuteria ou não, aquele pequeno achado trouxe de volta o vigor roubado por dias incomodamente parecidos. Pela rotina do senso comum. Mas não era só isso. Quando levantei a cabeça notei que as pás do moinho concebido por Sir Moses Montefiori estavam em movimento. Um moinho erigido num vale aonde raramente venta. Mas ei-lo, lá estava ele, imponente, com as pás em deslocamento.

Era uma prova empírica de que a crença pode ser deslocada. Tornei-me crédulo. Hoje, acredito no vento.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.