In dubio pro societate

In dubio pro societate

Paulo Rosenbaum

24 Agosto 2018 | 11h36

Horizonte – Cidade de São Paulo (P.R)

O velho e esquecido adágio do direito “In dubio pro societate” (na tradução livre : em caso de dúvida, favoreça a sociedade) me foi recitado por Marina, minha estudiosa filha, academica do curso de Direito. Isso significa que, na dúvida, o Estado deve agir e decidir em prol do conjunto. As instituições que se batem para despistar as regras constitucionais, precisam recuperar a tradição. E, se fossemos escolher só uma, entre as milhares da hermeneutica jurídica, esta seria a eleita.

O País vai parando. Escolhe suspender-se em função de eleições temerárias. Não há mais festa democrática. O entusiasmo, substituído por aflição. Sob o eco de moedas em derretimento todos olham para o mesmo ponto. Cego, sob um céu, sempre postergado. Um mundo vindouro onde a perspectiva do bolo que cresceria para ser dividido, parece cada vez mais inviável. Trata-se de doce indivisível. Eis o maná vindouro, aquele que não descerá tão cedo. E é desta abstração, deste crônico e recorrente engano que vivemos nos plagiando com a mesmíssima história. E por que não espalha-la como boato ou notícia verdadeira por mais um dia? Não é no que acreditamos? Num futuro circular. Onde o mesmo, faz a mimica do novo. Onde o velho finge alternância. Mas alternância de poder significa rodízio de agentes ou de ideias?

Todo justiceiro social acredita mesmo em sua superioridade moral, é adepto de uma potencia premida. Idealizada. Não pelos esforços, já que a meritocracia foi abandonada, mas por uma divisão de tudo que a sociedade produz. A equidade, dos resultados. Não importa quem você seja, o que você faz, pensa, no que trabalha, habilidades ou dedicação. Esta premissa, falida, a falsa promessa, mancomunada com o que há de pior da manipulação no qual vem se assentando o conceito hodierno de justiça social. A igualdade de oportunidades, migrou ao paradigma de “igualdade de resultados”.

Esta notável deformação decorre tanto de um leitura superficial do manual de marxismo conciso, misturado com a manipulação às avessas do darwnismo social. Como se uma visão política baseada no materialismo instrumental fosse natural. Conjugados, impuseram sobre a sociedade os elementos perversos que a escravizam: para além da corrupção sistêmica e do populismo autocrático: a falta de sentido.  Só pode ter sido estes os elementos que nos levaram à tamanha precariedade.  Onde instituições encontram-se em evidente estado involutivo. Regressão, hoje polarizada entre extremos autocráticos, não declarados inimigos da democracia. Enquanto o marketing político acelera seus enganos bem estudados, o difícil é fazer os cidadãos enxergarem que retrógrado e totalitário representam a mesmíssima coisa. Com sinais e simbolos invertidos.

Lembram-se do caçador de marajás e, em seguida, da pregacão fanática da ética na política? Dos slogans que deveriam ser classificados estelionatos. Para não repetir amanhãs de erros antigos precisaríamos de uma crítica mais fecunda, viva. De nada adiantará prosseguir na militância universitária, jornalística, partidária e sectária.  A amnésia. aliás, é a grande aliada da saturação, e, desde sempre, vem conspirando junto com os autocratas do mundo. Esquecer tem sido o grande, senão único, remédio para encobrir os erros políticos. Não será uma educação militar ou cicloativismo anticarros dois extratos do mesmo teor de primitivismo?  Jamais poderiam ser símbolos de campanhas políticas de um Estado. Mas aqui as causas adquirem outro papel. O grotesco é naturalizado como estratégia política e os líderes escolhem sabotar as escolhas mais saudáveis, embora todas estejam contaminadas com a mesma patologia que dominou a vida pública brasileira.

A quase paralisia da economia sob uma avalanche recorde de desempregados no ex-emergente País, diz muito. Fala mais do que gostaríamos de ouvir: o desenvolvimento não deveria estar subjugado –atrelado ao cenário dos discursos políticos. Só resta à sociedade emancipar-se do poder centralizado, cujo desdobramento reforça o culto à personalidade. Muito melhor a consciência da falta de liderança e assumir esta condição, do que submeter-se à acefalia fisiológica. Escolher o proprio destino deixou de ser um detalhe, virou kit de primeiros socorros.  O que sacrificaríamos se a decisão for que o Estado não será, doravante, o centro do mundo?

Que toda dependência química que dele temos nunca criou soluções, mas a cultura mesma onde toda patologia progride? Notem, por exemplo, que a autocracia detesta o sujeito. Despreza o individuo. Massacra o privado. Como se estes fossem os verdadeiros inimigos do coletivo. O erro é tão colossal que tangencia o absurdo.

Só a emancipação conquistada pelo cidadão teria o potencial para abrir o caminho nunca considerado: a real fusão de horizontes, onde as particularidades e idissincrasias serão respeitadas e preservadas.

E, oxalá, nos mostrará como sair da crise voluntariamente gerada pelos anos de aparelhamento e omissão, auxiliados por uma oposição que habilmente promoveu a própria debilidade simulando combates enquanto, no back stage, costurava acordos prévios de impunidade. Ou a omissão de quem deveria se opor ao sequestro do Estado não é um delito tão grave quanto o protagonismo dos espertalhões?

Muitas vezes, a desesperança age como motor, forçando a pulsão destrutiva a exibir-se sem roupas. Mas vai que o choque da nudez nos faça recuperar os sentidos.