Inadmissível

Inadmissível

Paulo Rosenbaum

22 Maio 2015 | 14h44

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Assim que largou a lâmina, o criminoso transformou-se em vitima do sistema e em seu auxilio, vieram os defensores da inocência presumida de réu confesso. Vossa excelência saberia qual é a primeira acepção de vítima no dicionário? Um objeto ou ser vivo destruído ou sacrificado por uma causa ou um objetivo. Eis que o conceito de vitima — assim como outros — vêm sendo desmontado por uma única interpretação ideológica.

Agradeço sua entrevista, ela elucidará o panorama.

Acabam de conceber, é decreto e é oficial: no nosso País temos só vítimas, as primárias e as secundárias. Sobraram alguns crimes, mas o grosso não é mais isso. Todo mundo hoje é vítima. Aproveitando a ocasião o Sr. poderia explicar o que quis dizer com “isso é  inadmissível?”

O que ninguém pode aceitar? Perfeito. Permite adiantar para o Sr? Ontem, encontrei um dicionário subjetivo e queria muito submete-lo à sua apreciação. Pode ser? O senhor não tem tempo? Posso ler. É só mesmo um verbete, o “inadmissível” . Já está na mão. Por que o senhor está correndo? Não tem problema, vou caminhando ao seu lado. Não se preocupe, sempre consegui ler andando. Já que o senhor não está parando começo aqui mesmo:

— Acepções do Inadmissível: facas inimputáveis. Equivalência moral entre criminoso e vítima. Estado omisso. Segurança entregue à sorte. Desprezo sistemático pela sociedade. Indignação forjada. Educação postergada Alianças de ocasião. Perdão à revelia da criatura imolada. Concorda? Mas como, se ainda nem comecei? Veja só o que o vossa excelência acaba de dizer. Em meios aos atenuantes, vítimas continuam vítimas. A injustiça social é explicação ou desculpa? Vale para a Lagoa e Alemão, Copacabana e Galeão? O senhor não acha que  o vale vida não deve conhecer latitude, longitude nem vicissitude? Tem gente que não é responsável pelos próprios atos? Então, por favor, explique qual é a idade da moral? Tudo bem, vamos então mudar para ética. Que seja. Por acaso o senhor ouviu o que estão dizendo por ai? Eu sei, eu sei, é tanta coisa para escutar que é melhor ficar surdo. Mas tive a paciência de gravar para que vossa excelência ouvisse: “Sob injustiça não pode haver paz, logo, vale tudo”

Espantoso não? Não estou insinuando nada, o áudio é muito claro. O senhor e seus aliados estão deixando a coisa andar? Eu entendi, claro que entendi. É para deixar todos em igualdade de condições. Socializar a desigualdade. E como é que as coisas se ajeitarão? Não é bem assim? Então explique, sou todo ouvidos. Será na coletiva? Ah, na palestra de doutor honoris causa. E qual o título da vossa aula magistral excelência?

“A medida certa para que o Estado não sucumba nem ao capitalismo selvagem nem ao populismo de ocasião?”

E logo depois, para onde vai a comitiva? Inauguração de fábrica chinesa de rojões? Qual será o tema do discurso? Meio batido. Ouvir o que ela tem a dizer sobre o “Pátria educadora”? Não vai dar.  O senhor está me convidando? Cadeira VIP para a imprensa? Quanta honra, mas justo nessa tarde terei compromisso. Mas isso é muita indiscrição excelência. É meio delicado, mas para o senhor posso contar. Tenho agendada uma audiência no tribunal de pequenas causas. Não, nada sério. É que resolvi processar o Estado. Não, nada disso. Não sou um desses querelantes malucos. A causa é mais do que justa. Promete guardar segredo? Não, não estou brincando. O processo está tramitando há anos. O juiz foi ameaçado, testemunhas precisaram ser escoltadas, e o senhor não imagina quantas vezes tivemos que adiar o julgamento. Agora será em local secreto. A causa? Estou pleiteando o direito de permanecer vivo.