Insatisfação, ampla, geral e difusa: hipóteses

Insatisfação, ampla, geral e difusa: hipóteses

Paulo Rosenbaum

16 de junho de 2013 | 12h59

 

 

Manifestantes vão filmar e denunciar ação de vândalos

Movimento Passe Livre adotará medida no protesto desta segunda-feira, dia 17, no Largo da Batata, para evitar violência e confronto com a Polícia Militar

 

Muitas vezes, a análise jornalística deriva para o campo opinativo. Melhor então ficar com as hipóteses que as certezas.  

Recente artigo traduzido para o inglês e publicado no site da CNN diz sobre “as verdadeiras causas das manifestações em São Paulo”. Depois alguém postou um outro com legenda e tudo. Em nenhum momento a pessoa se identifica nem fala a qual partido ou organização pertence.

Afinal, quem são eles? O que querem? Quem os subsidia?

Antes é preciso lembrar da sequencia cronológica de eventos. Começou com a mobilização pelo passe livre, bandeira de partidos de extrema esquerda que entre outras perspectivas pedem em seu programa de governo o “fim do capitalismo” e a adoção, como princípio político, “a ditadura do proletariado”. Não merece comentários a incapacidade da esquerda latino americana de reciclar o marxismo, tampouco sua visão estanque e quadrada da realidade social. Há uma paralisia mental que não consegue perceber que é vital ressignificar o socialismo e o que se entende por justiça social. Isso, se quisermos conservar qualquer viabilidade democrática em nossos tempos.

Entre os integrantes do MPS há gente autenticamente indignada e uma miscelânea confusa: grupos anarquistas, trotskistas, juventude do PT, agrupamento freelancers, e, mais recentemente, parece que ajuntaram-se a eles torcidas organizadas e MMA autônomos. A polícia reagiu, ao que parece com intensidade um pouco maior do que a situação pedia, e ai começou, de fato, a se desenrolar o que realmente interessa para construir hipóteses.

A instrumentalização se tornou patente e enquanto o governador se degastava opinando, o prefeito titubeante se calava. Só depois, tardiamente, acenou de Paris que a culpa pelo acirramento dos conflitos era da polícia militar do estado. Muito conveniente. Após uma semana tergiversando resolveu sentar-se com os manifestantes. O que isso indica? Que o que está em jogo de imediato é, na verdade e de fato, a sucessão ao governo de São Paulo. Não é a toa que as fichas lançadas e jogadas de vários cantos do país estão vindo parar neste Estado.

A migração das reivindicações que nominalmente visava coibir 20 centavos, foi óbvia. Agora já é saúde, educação, e a notícia fresca é que já um subgrupo “contra a copa” além de outros varejos. Isso aumenta a evidencia de que a expansão da agenda não era tão espontânea. Agora já incorporam — é preciso dizer que são, todos eles, argumentos válidos — salário dos políticos, fila em hospitais, malversação dos recursos públicos e a infinidade dos truques de praxe, cometidos contra todos nós.

Mas, de novo, o que nos diz esta inconclusiva miscelânea?

O artigo acima mencionado, publicado em site internacional de alta visibilidade desfila uma série de fatos verdadeiros, seu erro fundamental está em alinhava-los de forma maniqueísta e superficial. De fato, há a volta da inflação, incompetência, gula fiscal e a divisão de poderes está seriamente ameaçada. Tudo isso procede. O que não procede é o timing e o discurso. A organização dos manifestantes tomou tudo isso conscientemente como pauta e agora saíram do esconderijo apenas para mostrar força? Tudo pareceu informal demais, amador, para depois se apresentar com legendas em inglês? Ou faziam testes? Balões de ensaio para testar as instituições?  

Quando multidões com posturas muito heterodoxas se juntam, espere pelo pior. O que os aglutinou e pode continuar aglutinando é o motivo pelo qual, possivelmente, logo adiante, os desunirá. A consistência não pode ser de mentirinha, nem a insatisfação tão ampla, geral e difusa. Vai para muito além da política econômica e do passe livre. Numa sensação de desgoverno e de insegurança, a anomia opera, como aliás em menor escala já se impunha na segurança pública. E o maior perigo não são eles (minoria agitada e barulhenta) mas a instrumentalização e a conotação que os partidos e lideranças irresponsáveis, estão tentando imprimir ao movimento.

Se um movimento tem poder para se organizar é obrigatório que controle seus afiliados. Se não consegue controlar aqueles que se infiltram e os que se excitam com violência, precisa parar de funcionar ou assumir a responsabilidade – e enfrentar as consequências — pela guerrilha. Isso, antes que apareça um defunto para encorpar a pauta. É o que muitos dos atiçadores precisam, mais do que nunca, para espalhar a propaganda. E a radicalização só vai servir à causa do poder e incrementar a violência.

Caso assim prossiga este movimento – que poderia ser o fato novo e o descongelamento da hibernação imobilista – deixará de ser uma mobilização democrática e se tornará mais uma turba contra a maioria da população, que aliás até ensaiava enxergar com simpatia a causa. Afinal, quem não quer melhorar o transporte público das cidades?

Porém, cometeram grosseiro erro de cálculo. A presença de coquetéis molotov, soco inglês, tchacos e outras armas brancas de guerra, mostram que muitos vieram dispostos à porrada. Derrubaram lixo, tocaram fogo, fizeram barricadas, apedrejaram ônibus e descontrolados continuaram a depredar nas ruas. O que passaram a evocar no imaginário popular já não é exatamente simpatia.

Quanto mais difusa e inominada for essa insatisfação, maior o risco de que eles se posicionem emulando um clima de guerra civil – e evidentemente não temos nenhum indício, nem motivos, de que isso prosperaria por aqui. Fermento para que o bolo cresça há, o que não é legitimidade para que paralisem a cidade com suas lamúrias e ações autoritárias. Impor uma agenda a milhões e impedir as pessoas de circular é, sim, típico das arregimentações fascistas.  

Se saíram ou não de trás dos computadores, da periferia, da USP, ou de casas ensolaradas dos jardins pouco importa. Passa a importar, e muito, o conteúdo e o alcance das ações: se são jovens mimados/agressivos que querem incendiar a cidade ou gente que quer transformar o país – a legítima utopia — com o único recurso apropriado numa democracia: votos e resistência não violenta.

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