Insignificâncias do mal

Insignificâncias do mal

Paulo Rosenbaum

07 de agosto de 2013 | 13h08

 

 

Hannah Arendt, vista por sua criadora 

A Coragem moral de Hannah Arendt

‘Hannah Arendt’, o filme de Von Trotta

        

                 

Insignificâncias do mal

Dezenas de artigos, análises e conversas de rua depois, o filme de Margarethe Von Trotta sobre a filósofa Hannah Arendt, ainda não foi devidamente esmiuçado. O filme é cinematograficamente bom sob a presença cênica de Barbara Sukowa impecável no papel principal. O acerto está também na inserção de trechos originais dos debates que representaram uma das batalhas jurídicas essenciais para a compreensão do século XX. Mesmo assim, as vicissitudes superam as virtudes deste longa metragem.

A impressão que fica é que não se executou uma obra da sétima arte, mas defesa de tese com recursos filmográficos. A diretora e a roteirista, Pam Katz, parecem ter privilegiado um enfoque que, além de vez por outra lançar condenações veladas ao sionismo, buscaram expurgar a ansiedade de consciência que ainda paira sobre o papel coletivo dos alemães durante o III Reich.

E se da arte não se deve esperar completude, pode-se sim exigir honestidade intelectual no trato das ideias.

Um dos mais comandantes do alto escalão nazista, Adolf Eichmann, foi capturado em Buenos Aires em 1960 pelo serviço secreto israelense. Ironicamente, quem casualmente o identificou na capital argentina foi um judeu alemão idoso e cego, ele mesmo vítima sobrevivente da juventude hitlerista. A pauta central do filme é o julgamento em Jerusalém do homem que teria arquitetado a “solução final” – o projeto de eliminação sistemática dos judeus europeus.

Determinada na defesa das ideias contidas em seu “As Origens do Totalitarismo” a filósofa decidiu assistir o julgamento de Eichmann como correspondente do New York Times e redigiu artigos para publicação na revista da casa, aNew Yorker.

Para ela, toda cúpula nazista não era, necessariamente, composta por monstros, pervertidos ou aberrações da psicopatologia e o depoimento mecânico e sonso de Eichmann aos juízes israelenses pode ter ajudado a ludibria-la quanto à natureza de alguém, que em uma entrevista em 1957 a um ex-companheiro, já se definia como “um idealista”. Contrariamente às acusações da época, em momento algum Arendt o absolve, investe na relativização da grandiosidade autoral do criminoso. O teórico nazista era apenas um caso fortuito de mediocridade existencial, venial, sediço, frívolo, anódino, ridículo. Este tipo de insignificância era chamada por aqui, nos séculos precedentes, de “dez réis de mel coado”. Dessa perspectiva, o gerenciamento do mal poderia ser exercido por qualquer um contra qualquer um. A verdade empírica é de que não foi qualquer um, nem contra qualquer um. O extermínio foi ditado por sujeitos contra sujeitos. Antes do despejos nas valas tinham nomes, identidade, vida. 

Pela ocasião da publicação do livro “Eichmann em Jerusalém” que Arendt concebeu o subtítulo “banalidade do mal”. Sua perspectiva original, ampliar o debate e desmontar a retórica maniqueísta que simplificava a luta entre o bem e o mal. Para ela, não havia nada grandioso ou extraordinário. A verdade psicológica, a energia motriz que esteve todo tempo por trás do genocídio que teve curso entre 1939 e 1945 era fundamentada numa mesquinharia. Enxergar massacres entre os quais o maior infanticídio já registrado como reflexo de uma atitude que banalizava o mal, foi uma ideia revolucionária e hoje sua tese parece ter sido assimilada como uma das ideias consistentes para a compreensão do período. Contudo, no afã de tentar reduzir o mentor intelectual dos assassinatos em grande escala a um paspalho dotado de semi-consciência de seus atos, abusou das ilações e conclusões a partir do material casual que conseguiu reunir.

O filme pesa a mão para construir Arendt como paladina do racionalismo imparcial que ela mesma resumia como “pensar sem corrimões”. A escada, no entanto, costuma ser mais sinuosa, escorregadia e íngreme; as vezes termina em parede.  

O roteiro ainda faz uso subliminar da ideia de que por ser judia, a escritora seria porta-voz de insuspeita imunidade intelectual.  Foi assim que Arendt reuniu coragem suficiente para abordar o tema considerado tabu e, abusando do aval, concedeu-se revirar a índole das vítimas. Senão o que significaria a perigosíssima generalização de que as lideranças judaicas, os chamados “conselhos judaicos” eram colaboracionistas? Para tentar aliviar a tensão o filme deixa no ar a possibilidade de que tenha sido um colaboracionismo involuntário.  Em vão. Entre milhões de dramas que em que se constituiu a micro história de cada pessoa, milhões de famílias, cidades e comunidades inteiras seria impossível construir uma grande teoria unificada que explicasse a complexidade dos eventos daqueles anos.

Além disso, a realidade de solo não correspondeu exatamente aquela que Arendt colheu das pesquisas bibliográficas e dos autos do processo que acompanhou pessoalmente em Jerusalém. Neste caso, teria sido vital cuidado acadêmico e  tenacidade filosófica para conduzir entrevistas qualitativas em profundidade. A missão de quem pesquisa é capturar a realidade com mais acurácia antes de formular uma teoria tão compreensiva. Especialmente, se o drama tiver redes e raízes e que se estenderão através da história.

Não só o filme “Shoah” de Claude Lanzmann, mas muitos relatos de sobreviventes do holocausto – alguns deles por mim ouvidos em detalhadas narrativas —  afirmaram que o processo de seleção que os nazistas operavam nas vilas, cidades, e pequenos guetos de toda a Europa, particularmente nos países do leste europeu, caracterizava-se primeiro pelo domínio dos territórios. Em seguida, varreduras em arquivos públicos em busca dos “não arianos”. O passo seguinte, identificar líderes locais (políticos, médicos, rabinos, professores e qualquer que tivesse alguma função de organização) para enfim os reunir e os fuzilar ou queima-los vivos.

Por mais esforços atenuadores e indulgentes que os bem pensantes contemporâneos possam fazer, sempre será incontestável que o país com reputação de primor da civilização iluminista ocidental tenha dado à luz, um dos períodos mais obscurantistas da história.

Assistam, mas saibam que, para alívio dos espectadores, o verdadeiramente perturbador foi providencialmente deixado do lado de fora da película. 


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