Interdição do mundo

Interdição do mundo

Paulo Rosenbaum

28 de novembro de 2013 | 15h00

 

 Um acordo importante foi alcançado e mundo aplaude o êxito da paz intermitente. No entanto, como o julgamento histórico é sempre retrospectivo, e caso tenhamos mesmo algum tempo adiante é que vamos poder avaliar melhor qual o resultado efetivo dos acordos recém assinados na Suíça. Herbert Marcuse já prenunciou em seu “A ideologia da Sociedade Industrial” que a principal, senão a única utilidade do arsenal nuclear em nossos dias é seu desuso. Isso não significa que não se possa classificar conflagrações mais violentas e hecatombicas que outras. Que seja um adiamento. Melhor que a guerra, certo? Mas, e se isto for leniência e provocar um incremento potencial para um conflito mais pavoroso ainda? Isso parece importar pouco. Bancos e empresas européias não perderam tempo e já recuperam o tempo perdido.

A questão toda é saber quando e quanto se pode confiar no regime de líderes supremos comandados pelo tribalismo dos aitolás, cujo background não coincide exatamente com a sintaxe da paz. Toda semana, um santo homem, de nome Ali Khamenei, reafirma seu compromisso com a extinção de uma nação sem escandalizar os demais membros do ONU.

Por isso é preciso explicar melhor como funciona de fato o sistema presidencialista iraniano.  De uma lista com nomes pré selecionados, o líder religioso elege aqueles que irão ao plebiscito.  E o regime não permite a presença de observadores internacionais para verificar a lisura dos pleitos. Portanto, é impossível saber ou fazer valer a vontade do povo iraniano.

É preciso admitir que a região toda, marcada por séculos de conflitos étnicos, minada por colonizações sucessivas, sempre apresentou tropismo bélico acima da média. Porém, a agenda da Guarda Revolucionária, guardiã suprema da Revolução e o núcleo duro do poder, é bastante explicita em seus objetivos. Sua carta de intenções evidencia que uma internacional teocrática xiita impõe-se no topo da lista de prioridades da cúpula dirigente. O temor portanto não é de que o Irã seja uma “potencia regional” como anuncia os propagandistas subsidiados, mas que consolide sua posição irredutível, até alcançar um irreverssível trunfo nuclear.

É claro que alguém evocará o suposto expansionismo israelense como equivalente moral ao imperialismo de Teerã. Mesmo quando se usa o disfarce anti-sionista como bandeira e sob enorme boa vontade na exposição dos fatos, não há a menor possibilidade desta comparação atender à lógica.

O que  faz mesmo diferença para enfrentar qualquer debate sério sobre as pretensões nucleares do País persa é avaliar o contexto. Por mais defeitos e imperfeições que Israel possua, incluindo a quota normal de falcões e radicais, é que este país conta com instrumentos não militares que simplesmente inexistem em toda a região. Artefatos civilizatórios em vias de extinção, principalmente no Oriente Médio e na América Latina: sistema democrático estável e regular, alternância de poder, imprensa livre e liberdade de expressão.

Regimes abertos e representativos significam uma senhora salvaguarda contra fanatismos e autocracias sangrentas. Qualquer movimento, qualquer deslize, qualquer tentame autoritário e aventureiro, qualquer crime e todo abuso, podem ser imediatamente denunciados. E o judiciário de lá, sem um dedo do executivo, já enjaulou gente poderosa, políticos, civis, militares.

Entretanto, as potencias mundiais que costuraram o pacto com o Irã tem consciência, evidentemente inconfessa, que se nada de novo acontecer, trata-se apenas de postergar algum tipo de devastação nuclear, acidental ou voluntária. Sim, há algo pior que floresce nos escombros das guerras civis e que se espalham pela região. Células terroristas avulsas, jihadistas free lancers,  com ou sem a franquia da Al Quaeda, encontraram espaço para crescer e multiplicar no fértil terreno da indecisão e pusilanimidade diplomática da Europa e América do Norte. Relatórios da inteligência militar explicam que grupos terroristas autônomos podem obter  uma “bomba suja” e  já têm posse de “armas químicas e biológicas”. A situação passou de uma especulação hipotética, só não se sabe quando e onde.

E mais um alerta foi recém disparado. Parece inacreditável, mas, mais uma vez, o planeta se vê as voltas com uma nova escalada marcial entre potencias nucleares. A China acaba de reativar o litígio militar com o Japão. Os EUA desafiaram a zona de exclusão com seus B52 e a República Comunista respondeu com jatos sobrevoando Diaoyu, um arquipélago desabitado mas com ricas reservas nas águas profundas. Quais os limites entre o jogos de pressão, dissuasão e um míssil disparado por mãos nervosas?

Perspectivas de paz para o mundo? Que ultrapasse a provisoriedade e aposente para sempre armas apocalípticas? Só mesmo convocando o Criador para presidir uma espécie de última e derradeira assembleia. Aceito pelas partes, finalmente arbitrará quem tem razão nas  disputas. É só palpite, mas altíssimas probabilidades de um veredito inédito. Abrirá mão dos laudos técnicos da psiquiatria forense e interditará o mundo: os sinais de insanidade são auto evidentes.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/interdicao-do-mundo/

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