Interinidade e método científico.

Paulo Rosenbaum

02 de junho de 2016 | 16h29

Num País que trepida um governo de salvação nacional deve ser austero, não necessariamente discreto. Se o governo é interino, a crise não. Quais instituições consideram aceitável que o controle do País siga o fluxo que der na veneta de um ou de outro senador?  O jogo é, todo ele, sórdido. A diferença está em aceitar a boia ou escolher o último prego. Apreciemos ou não, eis um governo que veio para substituir a algazarra pseudo republicana. E que se propõe, sob a mesmíssima legitimidade dos quase 55 milhões de votos da cabeça de chapa, resgatar o que soçobrou da sanha populista sem precedentes. Aventura que ninguém sério poderia se dar ao luxo de negar. Muitos acham seriedade uma típica caricatura do burguês. Daí provém a tergiversação, a renegação e o tumulto. Como especialistas na arte da inversão, eles são tudo menos imprevisíveis: acusam o mundo pelo cenário grotesco cuja autoria está impregnada de digitais da central de delitos. Considerar os outros imbecis tem sim uma vantagem. Pode-se viver no conforto estoico achando que a sociedade inteira não faz mais do que a obrigação em aceitar as malversações do intelecto.

Exige-se do Senado da República que a presidente afastada e seus exércitos camuflados, sejam completamente neutralizados. Sob pena da auto-extinção do poder legislativo, isso tem que ser feito agora. A ameaça da volta ao status quo precedente é o jogo com o qual o Partido sempre sonhou: decretar a irrelevância do poder legislativo e dominá-lo. Nós já deveríamos ter superado o ponto das preferências partidárias. Chegou o momento de assumir que ultrapassamos o problema de conivência para entrar no tema da sobrevivência. Subsistir à gestão que usurpou o Estado baseada no voluntarismo improvisado. Se o interino herda uma República flagelada e isso não o exime, só aumenta sua obrigação de acertar. Para isso é fundamental a resistência à corrente dos ardorosos defensores do “desmanche” do sistema que se espalharam das cátedras universitárias aos palcos. Sugere-se que seja qual for a argumentação usada para defender a novíssima república que ela esteja alinhada com os procedimentos da ciência.

O que nos ensina o aprendizado científico? O primeiro componente impertinente é assumir alguma ousadia. Sem ela não haveria ciência. Significa que a ciência não evolui graças à linearidade. Jamais sob progresso uniforme. E nunca sem a dose certa de ceticismo. O progresso, se e quando existente, vem com solavancos, voltas e retornos, valorizações, e desvalorizações. Aceitemos o contra-intuitivo. Em uma palavra, a  ciência prevê retificação constante, permanente revisão, e implacável questionamento dos rumos de uma investigação. Foi assim com a Medicina, Biologia, Física, e com todas as outras áreas. As vezes, é preciso recapitular para proceder o exame crítico. Em outras ocasiões adiantar processos, queimar etapas para não colocar tudo a perder, e a celeridade, normalmente condenável,  passa a ser uma virtude. As incoerências fazem parte da experiência empírica. Ninguém duvida que, por motivos errados, muitas coisas acabaram se encaminhando na direção correta. Aprende-se muito com o desapego das velhas fórmulas. Resumindo, a insegurança não justifica a paralisia. O novo não aparece de graça.

O governo que se inicia não é, de fato, interino e só retrospectivamente perceberemos quão vital ele pode ser. Sua permanência será crucial para a estabilidade mínima. Enquanto hostes avessas à cassação dos privilégios acumulados propagam  teses ridículas, a maior parte dos defensores da método petista de governar fundamentam-se em premissas que oscilam entre inconsistência e desonestidade. Já a população torce para que quem hoje está governo, desvire o barco. A maioria, por exemplo, tem esperança de que se promova o País e a economia. Torce, evidentemente, com pouco entusiasmo. Pudera, trata-se do sócio recém separado. E dai?

O que a população experimenta não é só desemprego com inflação, vivencia o medo de novos desacertos, de omissões insuportáveis, da tarda-justiça que nos condenou aos foros especiais e segredos selecionados. Vivemos momento inédito. Os mesmos de sempre já se pronunciaram: preferem a insolvência. Torcem pelo malogro da sociedade se não for para trilhar o caminho por eles traçado. Na guerra interna, áudios continuarão sendo vazados no conta gotas, minando a já cambaleante reputação dos políticos. Que prossigam as apurações, mas que passem a ser detalhes do quadro geral. Diante da corrosão diária de expectativas dos brasileiros o que interessa é como resgatar o País de um sequestro que parece sempre perto do fim, mas não passa.

Por isso tudo exige-se do presidente em exercício e sua equipe uma exposição mais ousada e corajosa. Sua maleabilidade pode, paradoxalmente, se transformar numa inaudita demonstração de força. Sem grande invenções, têm a oportunidade de reafirmar uma nova versão de liderança. Sua gestão poderia ser um símbolo da luta contra qualquer gênero de aparelhamento. Sem revanches, é preciso limpar os detritos deixados pela paixão obscura que nos impôs a arrogância e o menosprezo como estratégia de Poder. Contra essas forças só há um remédio: a clareza da decência. A ideologia já nos cegou o suficiente até tatearmos o abismo.

O cavalo está passando selado: é embarcar ou embarcar.

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