Intolerância latente

Paulo Rosenbaum

13 Agosto 2014 | 18h37

Antisemitism means “hating Jews more than is absolutely necessary.

Antissemitismo significa: odiar judeus mais do que o absolutamente necessário.

Isaiah Berlin

Sou mais um que vai parodiar Tom Jobim, mas o refinado senso irônico de Isahiah Berlin não é mesmo para principiantes. Apresenta a eloquência dos que compreenderam que sempre haverá álibi para racionalizar a judeofobia. Alguns destes álibis são hilários, outros travestem a lógica com argumentos aparentemente plausíveis.  Entre os diagnósticos instantâneos: “Estão vendo, é Gaza! É a direita no poder em Israel! A culpa é da política expansionista dos israelenses! O conflito não é ideológico, mas puramente político!”

 Recente edição do “The Guardian” relatou em números, o aumento exponencial dos ataques antissemitas pelo mundo: só comparável ao período de ascenção dos nazistas ao poder. Só que isso foi em 2013. Evidentemente que a catarse de uma guerra acelera hostilidades latentes. Na semana passada, cemitérios pichados na Itália, turbas apedrejaram lojas de judeus em Marselha e Paris, e neonazistas se juntaram aos jihadistas e à extrema esquerda, para entoar conhecidos slogans antijudaicos em Berlin e Munique.

 Em geral, as minorias são mais vulneráveis à intolerância como todos estamos testemunhando no impensável retrocesso da civilização no Iraque. Como ousam yazidis, cristãos, sufis, e outras tribos e etnias, subsistirem dentro de suas tradições, sem sucumbir à pressão do fundamentalismo que aspira ser dominante, e suprime as dissonâncias? Para além das escolhas religiosas, essa supressão é também cultural e simbólica. Se não, qual seria o motivo pelo qual os terroristas do Estado islâmico tenham se dado ao trabalho de destruir a tumba de Jonas dentro de uma mesquita histórica?

 Cenário e alianças podem mudar dramaticamente. Nas palavras do ministro das relações exteriores da Arábia Saudita, o conflito agora não é mais entre árabes e israelenses. Judeus, assim como outras minorias, são alvos ancestrais desses sentimentos, especialmente sob maiorias controladas por tiranos. É quando o “ódio suficiente” referente à ironia de Berlin, sai do controle, o excedente escapa, e as intolerâncias podem explodir em paz.

 Trata-se do velho pretexto infinito, do álibi universal, da licença poética para perseguir, que, subsiste, intacta, nos grotões da ignorância, nos porões inconscientes e sobretudo na linguagem. Dos libelos de sangue medievais – agora repetidos nas escolas infantis pelos terroristas do Hamás – ao affair Dreyfus, do arianismo aos campos de extermínio, os vagões podem ter mudado, trens e trilhos são, rigorosamente, os mesmos.

 Por outro lado, não é razoável acusar quem critica Israel neste ou em outros conflitos, como necessariamente antissemita. Mas o viés persistente que aponta quem se defende como algoz, o bias da mídia, e o tom usado pela legião de juízes parciais, são ingredientes que acabam metamorfoseando a crítica martelante em ação antissemita involuntária.

 A persistente tentativa de deslegitimar um Estado é o prenúncio para inviabilização do povo que o habita. No tabuleiro geopolítico do Oriente Médio é comum reputar o Estado hebreu como a única peça sobressalente. Entretanto, é fato que a maioria dos Estados nacionais só se agruparam como os conhecemos, durante o século XX. E por que com este País haveria de ser diferente? A difusão parcial dos eventos históricos pode ajudar a explicar, ainda que não justifique, boa parte da notória má vontade quando a pauta é Israel.