Isso não é um obituário

Isso não é um obituário

Paulo Rosenbaum

24 de fevereiro de 2014 | 11h57

 

Paulo Ramos Machado

Homenagens frequentemente rendem mais ao homenageador do que ao homenageado, portanto, é preciso assumir:  escrevemos por pura necessidade. Neste caso, para confessar que um médico é sempre coagido a pedir água. No final, a morte sempre aplica a chave de braço que obriga qualquer um aos três tapinhas no solo. É uma rendição sentida. A foice pode querer forçar sua agenda, mas resistimos a ideia de que ela queira impor lições de moral. Porém, involuntariamente, é como se ela estivesse sempre com um letreiro pendurado para dar seu recado. O mais provável é que seja sobre a natureza do inexorável. 

Pois desta vez ela chegou a um homem especial. Certo, em alguma medida todos os homens são especiais, especialmente nos obituários. Só que isto não é um obituário e o leitor entenderá porque.

O sujeito me conta que descia com seu professor a avenida São João ouvindo explicações onde se desenvolviam ao mesmo tempo temas musicais,  arquitetônicos, estéticos e sobre o futuro da arte. O professor era Mario de Andrade,  o aluno Paulo Ramos Machado.

Professor Paulo, como se identificava, deu aula para mais de 22 mil professores, formou grupos de estudo e participou do desenvolvimento de muita gente. Dizem que ele faleceu ontem de falência múltipla de órgãos.Só que numa verificação rápida pode-se dizer que, para algumas pessoas, a memória suplanta o desaparecimento do corpo, não por intensidade mas pela qualidade da presença.

Polissêmico e polifônico Paulo, como todo intelectual generoso – item escasso em nossos dias — era um artista que colocou a missão de educar acima dos outros preceitos. Sob esta ética, a família é , muitas vezes, preterida e trocada pelo projeto de adotar seus estudantes como se fossem filhos. Nem era esse o caso já que este docente escolheu se equilibrar no melhor dos dois mundos e criou, junto com sua esposa, uma família altamente prolífica e sensível. 

Fará falta não vê-lo caminhando por ai com sua dignidade de gentlemen, a altivez dosada pela bengala entalhada, no ar benévolo de quem viveu e superou quase tudo. Falta mesmo fará não ter à mão seu apreço pela vida. Para compensar, poderemos imaginá-lo em múltiplos lugares ministrando seu bom humor erudito.  

Que o bucaneiro geral tenha uma hospedagem especial no Estado da arte.  

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