Isso pode ter sido um livro

Isso pode ter sido um livro

Paulo Rosenbaum

28 Março 2013 | 16h31

“A abertura da biblioteca Brasiliana de Guita e José Mindlin, sábado à tarde, na USP, em São Paulo, reuniu representantes da intelligentsia de São Paulo, do professor emérito da USP Antonio Candido ao secretário da Cultura do Estado, Marcelo Araújo, passando pela ministra da Cultura Marta Suplicy e diretores da principais editoras paulistas. Mais de 500 pessoas lotaram o auditório da biblioteca e outro tanto acompanhou os discursos do lado de fora, ansiosos pela abertura da Brasiliana.”

Uma palavra comum como “livro” apresenta, já nas origens etimológicas, definição controversa. Os recursos aparentemente inesgotáveis da web não esclarecem muito. Ainda bem que volumes físicos ainda são legais e os dicionários insistem em permanecer em estantes. Segundo Antenor Nascentes grafa-se livro, do latim libru, porque primeiro se escreveu sobre folhas e cascas de árvores e deste uso são derivadas na linguagem corrente “folha” e “livro”.

Vai aqui um depoimento sobre essa preciosidade tridimensional que – me dizem – encontra-se no corredor da morte. A Biblioteca Brasiliana, doada por José e Guita Mindlin à USP, e cujo acervo acaba de encontrar abrigo definitivo no campus da cidade universitária é uma espécie de resposta teimosa, quase uma impertinência, aos que prenunciaram o fim desses objetos de papel.

Pura pretensão tentar defender livros contra os detratores, mesmo que o ataque mortal contra eles venha do arquinimigo dos românticos, a realidade. O fato é que no mundo virtual as palavras se transformaram em glossários e léxicos de contextualização fluida e incircunscrita. E as derivações transbordaram para muito além dos velhos dicionários e enciclopédias. Poderia ser bom se a polissemia não nos matasse pela dispersão.

De repente, sob o espírito que insinuava a unificação do saber, a linguagem se encolheu ao se esparramar pelo abismo plano do ciberespaço. Uma região sem nenhuma fronteira ou malha de contenção.

Mindlin, como disse Antônio Cândido na inauguração da Biblioteca na Universidade de São Paulo: “não era só um colecionador no sentido estrito da palavra: ele lia os livros.” Num país que ainda enfrenta um analfabetismo escandaloso e um considerável déficit educacional, o hábito de ler ainda permanece um culto estranho e incompreensível para a maioria da população.

Livros seguem sendo objetos complexos. Seria pena que sumissem antes de uma exploração mais radical. José Mindlin talvez não fôsse o único mas decerto era um dos poucos que compreendia isso perfeitamente. E esse entendimento o provável leimotiv para sua fissura bibliofágica (neste caso o uso da palavra “bibliofilia” seria reducionista, já que se limita ao apreço nutre por impressos). Como tantos vícios do bem, este acabou se tornando o objetivo permanente de sua longa vida.

As informações que os livros trazem, suas especulações, diálogos e fruições são apenas parte do prazer e alegria de ler. Entretanto há deleites de outra natureza, sensoriais, que transcendem o conteúdo: o cheiro do papel, a textura da capa, a descida táctil até o rodapé ou a simples sensação de posse desses paralelepípedos de folhas.

Claro que podem e devem ser digitalizados, colocados on line, vendidos para leitura em tablets e mercantilizados como chips de bolso, só não vale comparar o prazer real com o virtual. Melhor encarar que muito além do dilema – senão falso, superficial – entre o digital e o papel, está a ignorância na compreensão do que significa aquela que têm sido a mais poderosa máquina de diálogos.

Mas se for mesmo verdade que o critério será interexcludente e num destes duelos estúpidos alguém terá que ser sacrificado, vale parafrasear Mindlin e assumir que talvez não valha mesmo a pena viver num mundo sem livros.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”