Jogo de Cena

Jogo de Cena

Paulo Rosenbaum

08 de março de 2014 | 12h23

 

 

Notem que a crise que se anuncia na base não terminará em destrato. O petismo precisa do invólucro do pemedebismo para iludir a sociedade com um contrapeso que inexiste na prática. Faz parte do projeto anestésico que a opinião pública não detecte a vigência plena da hegemonia. Ao mesmo tempo, entorpece uma oposição que vai virando geleia de tanto esperar.

Pena que não decodificamos desde o início. Mas já estava lá, nos primórdios. Era o tal “marco zero”, o “nunca antes na história deste País”. Já eram indícios simbólicos que antecipavam essa perspectiva. O mesmo personalismo que cria postes e os derruba de acordo com a conveniência narcisista é aquele que orienta uma política raivosa sob o linguajar intolerante. O atuar ressentido instiga a violência, oprime a outra metade, o cidadão cujo candidato foi derrotado e excita a cizânia para bem além da luta entre classes.

Um dos problemas não previstos nas democracias contemporâneas é como lidar com o “mudei de idéia” acerca dos projetos que ajudaram os postulantes a conquistar votos. Com a silenciosa, mas progressiva bolivarização dos costumes, não haverá mais três poderes distintos e autonômicos. E a mesma fusão que borrifa o controle autoregulador que um poder deveria exercer sobre o outro, faz concentrar impostos, instrumentaliza o serviço público e aparelha a República contra os interesses da mesma. O futuro é a concessão de arsenais para milícias partidárias. Tudo em nome de uma ideologia que permanece impronunciável, até que os fatos se instalem.

As manifestações juninas foram quase uma reposta tímida, diante do tamanho do projeto de desconstrução em curso. Mas não há tantos resultados possíveis assim para o abafamento sistemático das tensões camufladas. Espera-se que a resistência surja por geração espontânea. Mas a leniência é mais benéfica aos tratores que as ovelhas. Só muito tempo depois do tempo perdido teremos noção do buraco. Tentarão nomear o que aconteceu, mas é quase certo, não será mais democracia.

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