Juízo das emoções

Juízo das emoções

Paulo Rosenbaum

22 de agosto de 2013 | 08h34

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Juízo das emoções

Não importa se é do PT, do PSDB ou de um partido que deixou de existir, o que realmente conta na batalha campal que voltou a ser travada na suprema corte vai para bem além das tecnicalidades e da linguagem jurídica – as vezes insuportável. Definitivamente não se trata de um “reality show”. A verdadeira hermenêutica da sala não é tampouco a jurisprudência, nem mesmo a análise dos embargos. Ali ocorre uma luta invisível, erma, que se estende para trás dos bastidores e que excede a mera análise do conteúdo discursivo.

Ali homens, que são juízes, e não ao contrário, estão em conflito. Lutam com suas consciências em meio às redes de pressão política, contatos e a sociedade que os observa. Eles procedem um auto julgamento paralelo inevitável, dividindo-se entre lealdade ideológica e justiça. Ao contrário do que foi dito, o que ali pulsa é um embate entre personalidades que compõem a corte. As instituições são conjuntos de individualidades, portanto sujeitas às próprias idiossincrasias. Ali a democracia pode ser percebida na navalha fina de uma confrontação ética que opera no interior das condutas. E a palavra ética, tão cara, mas inapreensível como uma realidade na vida pública, está engasgada. Vai e vem num pendulo sob os esforços daqueles homens e mulheres em examinar e determinar a vida de outras pessoas. Nada fácil a vida de um juiz. Neste sentido, o poder de interpretação encontra-se delimitado pela subjetividade e sob a carga emocional de cada componente do tribunal.  

Sabem que do lado de cá os telespectadores precisam sentir que as decisões tem consistência e duração. Entendem que a opinião pública afere quanto de legitimidade tem cada uma das palavras proferidas. Testam se o que se discute faz o sentido que deveria fazer. Isso transcende esforços racionalizados, erudição,  percepções intelectuais. Por outro lado, para quem acompanha, não se trata de torcer por réus condenados, testemunhar penas abrandadas, confirmadas, modificadas.

As pessoas querem não só entender como testar a seriedade dos argumentos. As pessoas querem saber o mérito da causa. A ação penal 470 tem um escopo e uma abrangência maior do que todas na história da República. É provável que, no futuro, estudiosos formalizem um vínculo direto entre as manifestações de junho e a transmissão das reuniões da corte.  O que se tenta discernir é a estratégia que o poder ousou para usurpar limites. Como ninguém pode julgar um plano com sujeitos ocultos foi preciso identificar os agentes que institucionalizavam o mercado de compra e venda de poder no país. Se outros também fizeram, aplique-se o mesmo rigor, máxima celeridade. Mas o que se nota é que, para alguns, a causa tinha lá sua nobreza e poderia justificar os meios empregados. Alguns julgam isso e não aquilo. Essa, a real raiz das brigas em plenário. O discurso que trás a perspectiva de indulgencia ideológica com o que se fez  – na prática enterrava em vida o poder legislativo – esquece que o plano constituiu uma ameaça formal à democracia. Felizmente, a maioria da corte conserva em mente que se não deve politizar partidariamente o julgamento. Ao mesmo tempo é dever daquele tribunal julgar a partir do impacto político e social que as evicções tiveram sobre o pais.

Por isso esse julgamento “pega“. Menos na mente que nas vísceras. Em situações extremas é normal ser atingido no plexo solar, antes de sofrer na razão.

A explosão e indignação do juiz não são tributárias do gênio ou do temperamento sanguíneo, mas reflexos das emoções do homem comum. Quem olha nas padarias, nos bares e nas casas a compenetração dos populares de olho naqueles homens e mulheres narrando seus votos deve ter notado a tensão e o esforço para captar o significado das sessões. Claro que o sangue de quem decide deveria permanecer frio, morígero, sóbrio, ajuizado. Mas, as vezes, quem lutou pela democracia compreende o que esteve em jogo naqueles anos e o risco que corremos.  

  

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