Junho de 2013 nunca será maio de 1968

Junho de 2013 nunca será maio de 1968

Paulo Rosenbaum

11 Dezembro 2013 | 20h36

 

Saques em dois terços das províncias e 12 mortes põem Cristina sob pressão

 

Na época até se cogitou. Nunca estivemos tão próximos da transformação. As motivações afluíam às ruas em pautas espontâneas, numa imensa maré justa. Na Paulista, alguém pichou no muro do banco “it’s revolution, baby”. O promissor é que parecia um motim pela utopia. Mesmo contra quem tomou a iniciativa, as marchas não tinham originalmente caráter socialista, capitalista, anarquista, nem sindicalista. O problema, descobrimos depois, é que não era nada. Não saímos do lugar. De lugar nenhum para lugar algum. Graças à força, tanto maciça como difusa, nada, absolutamente nada, mudou. Se o país acordou diferente, resubmergiu, letárgico, deficitário e mambembe. Um movimento que se recusou a crescer da potencia para o ato. Se há uma razão para o paradoxo? Ainda não avaliamos a capacidade do poder amortecedor do tipo de Estado que está sendo erguido no Brasil. Ninguém de fato apreendeu a extensão da metáfora “uso da máquina”, o motor obsedande do poder central.

Mas se não recebemos uma reforma política, trouxeram-nos bodes expiatórios. O fato é que vivemos já num país policial que não só tolera, como naturalizou a violência. As inéditas punições desvelaram mais o sistema de privilégios políticos que a justiça. A chave do jogo é antiga como a história, todas as cartas estão marcadas. O poder assimila e neutraliza qualquer golpe. Sempre que a notícia estarrecedora vazar, artesãos de dossiês serão acionados. É na base da embromação que violações sistemáticas contra a liberdade de expressão podem se igualar a um acidente rodoviário, brigas de torcidas ou….a um decote. Onde a discussão sempre migra ao lugar errado e a indignação do final de semana acaba na segunda, na terça ou é sepultada na quarta de cinzas. Não é bem que sejamos um povo sem memória, somos o país da desmesura. Não compartilhamos uma medida básica, evidente e racional: direitos precisam se ajustar aos deveres. Como se explica que alunos jurem um professor de morte sem que toda pedagogia esteja comprometida até a medula? Pois este é o dia a dia de quem ensina.  Um país onde o direito ao privado, inclusive à propriedade, é ameaçado toda vez que nas plenárias, se inflamam os oligarcas do partido. Já suportamos demais. Aceitamos a concepção racialista se impor na base da canetada, o clientelismo que passou a ser, senão a única, a principal política de inclusão social.

O cidadão não pode ser culpado por políticos não terem compreendido a dinâmica histórica que transformou radicalmente o mundo. O analfabetismo e a ingenuidade política subsidiam a regressão e o anacronismo que tomou posse da América Latina. Se é exagero por que choques civis se espalham nas grandes cidades argentinas e milícias paranoicas se ampliaram na Venezuela? E o que será que nos espera por aqui? Decerto teremos mais um ano tumultuado, onde manifestantes não ultrapassarão a ideologia do estorvo, prejuízo coletivo e a destruição.

Por isso, junho de 2013, nunca será maio de 1968. A única coisa comum entre as datas pode ser o signo do fracasso.

Mas, se em Paris os professores e estudantes tinham algum valor e voz na sociedade, e só por isso, puderam se insurgir com consistência, no nosso caso, por cooptação, medo e manipulação, corremos o risco de morrer em praias incontinentes. Antes, muito antes que qualquer utopiazinha nos dê o ar da sua graça.