Justiça em transe

Paulo Rosenbaum

06 Abril 2016 | 13h09

“O poeta não tem nenhum poder, não pode remediar mal algum, somente é ouvido quando encomia o mundo, não porém, quando o apresenta como ele é na realidade”

Herman Broch – A Morte de Virgílio

Têm sido vertiginoso, discutível, duvidoso. A advogada explodiu em catarse. O professor de ética jurou que as instituições não estão funcionando na democracia não regulamentada. O jornalista acaba de modular, contundente e ao vivo, a voz de milhões. Futuro alvissareiro? Senhor, observai a faina no campo. Há uma justiça sagrada, na qual a lucidez é temporariamente abolida. Cede espaço ao transe. Para enxergar justiça não basta ciência e jurisprudência: é vital considerar o sentimento dos arredores. Por isso senhor, seria bom constatar que quando a cidadania se entrincheira, ela já foi perdida. O que pedíamos? Algo aparentado a uma visão panorâmica? Que pode até prescindir de líderes. Que sabe que o hiato é temporário. Uma profundidade que, sendo, ao mesmo tempo, inédita e sensível, nos dirigiria como conjunto. Que reagrupasse a fragmentação. Não é o que temos enxergado. O escudo que blinda os que governam não é promissor. Não preserva, enreda, não protege, insufla, não equaliza, perturba. A provocação que fazemos hoje não pode mais se pautar em vereditos isolados, sem contexto, pasteurizados. Não se trata de condenar o destino de muitos para indultar poucos. Nem de fechar as portas à defesa. A busca da paz não pode ser reconhecida até que o horizonte se expanda. Ninguem mais tolera constrições. A letra não merece superpor-se ao espírito das leis.  Não se organiza convívio de dentro das sombras. Nem a tolerância na miséria. Pedimos clareza senhor. É demais? Compreendo. Sim, as razões de Estado! Mas, e quando as razões do Estado vão contra as de toda sociedade. Paciência? O senhor é um devoto da técnica? Um escravo do dever?  Seu perfil é isento? O meu não. Meu partido é o da transparência. Por que então se fecharam na sala? Por que homens públicos tem encontros privados sobre assuntos públicos? Para nos ocultar? O que senhor? Não nos deve satisfação? Talvez. Mas e se não a pedíssemos? E se exigíssemos equidade. Como assim, projeto? Senhor, não endossamos projetos. As pessoas pedem muito pouco dos excelentíssimos e nobres. Não senhor. Dispensamos deferências, assim como regalias. A justiça, pergunto se o senhor já considerou, pode passar a respeitar consensos. Não, não o vosso. Mais de dois séculos foram necessários para que a divisão de poderes estivesse nas normas? A cidadania que chegou ao front Senhor, já pediu agua, não valas de guerra. O senhor pode enxergar o que o Poder está fazendo? Neste minuto? A apenas algumas quadras de vossas excelências? Aonde podem chegar? Difícil predizer não é mesmo? Com quais armas os defenderá? Não lhe parece abusivo? As fronteiras estão abertas Senhor, e nas nossas veias jorra um estranho calor. Portanto, já que a técnica e a ciência nos levaram ao beco, que tal mirar-se nas palavras do poeta? Não aprecia o gênero? Prefere o mistério? Eu já desconfiava. Só posso me despedir explicando: a última estrofe tem ritmo alucinante e uma melodia que a excelência jamais experimentou. Segure-se bem na poltrona, o senhor pode se surpreender.