Lhama real

Paulo Rosenbaum

23 Fevereiro 2013 | 21h50

“Uma lhama está entre os presentes enviados por centenas de chefes de Estado para a rainha Elizabeth por ocasião de seu Jubileu de Diamante, celebrado no ano passado. A rainha também ganhou charutos, binóculos, cervejas e mais de 400 livros.”

 

Assim que soube do presente por ocasião de seu jubileu de diamante a rainha manifestou desconfiança, quis saber a procedência do animal:

— Argentina ou Venezuela?

Mas, nos dias seguintes, entusiasmou-se quando a trouxeram até o palácio de Buckingham para as apresentações oficiais. No jardim dos fundos havia um pasto e o animal andino não reclamaria do clima inglês. Por decisão direta de sua majestade decidiu-se que o animal ficaria bem acomodado no estábulo bem ao lado dos cavalos Berdy e Deen, os puros sangue da realeza.
Mas logo se viu: a lhama não se adaptaria às baias.

Por ordens expressas de Charles, o animal passou a dormir dentro do palácio. O staff imperial todo se envolveu com Gina e a rotina da residência mudou completamente.

O príncipe se afeiçoou tanto ao animal que, quando parava em Londres fazia questão de deixar o bicho pernoitar em seus aposentos. Camila, incomodada, não protestava, mas preferia migrar para a ala norte. Aos filhos, o príncipe disse que estava adestrando Gina e anunciou os progressos. Os modos ingleses, dizia, devem ser repassados para todos os britânicos, mesmo aos naturalizados.

Demoraram meses para perceber o problema.

Uma das primeiras a suspeitar foi a chef da cozinha. Numa noite de gala, antes do jantar oferecido ao primeiro ministro, quase todos os aspargos tinham sumido da bandeja.

Em seguida, quase um terço da coleção de chaveiros de miniaturas automobilísticas. E por último, sabonetes. Eles simplesmente evaporavam dos toaletes. O sabão chegou a ser racionado no palácio.

Quando brincos, pequenas peças da prataria começaram a sumir, serviçais foram interrogados pelo MI5 e pela Nova Scotland Yard. O bicho só apareceu na lista de suspeitos quando os agentes policiais foram instalados lá dentro.

Câmeras de monitoramento infravermelho flagraram o animal sul americano, assaltando o banheiro de madrugada.

Gina era cleptomaníaca.

Transferida para um abrigo de animais com distúrbios de comportamento a lhama começou a perder peso. Depois do malogro do psicólogo especialista em depressão animal, ela foi internada numa clínica de recuperação.

Deprimida, finalmente acabou deportada de volta para a cordilheira assim que o veterinário vaticinou o diagnóstico. O camelídeo era caso incurável.

De lembrança, o primeiro da linha sucessória ficou com um cacho da lã e, na despedida, cochichou no pé do ouvido dela. Aos jornalistas, disse, sempre explicava tudo para os animais

–Prometi vê-la na América do Sul.

Uma semana mascando folhas anestésicas e a compulsão dela desapareceu. Era só síndrome de abstinência.

Charles voltou ao Sul. Nunca reencontrou Gina.

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“The only difference between reality and fiction is that fiction needs to be credible.”
Mark Twain

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Este primeiro blog postado daqui de Londres é dedicado à família.

Agradecimentos especiais ao Luís Fernando Bovo e Marcelo Romão.

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