Licença para odiar

Paulo Rosenbaum

06 Outubro 2015 | 00h52

Democracia_e_misti

O que testemunhamos no atual poder moribundo, é, no mínimo, indigno. Quem negará que o partido do governo foi pródigo em plantar a cizânia, instigar a litigância e flertar com a intolerância? Mas é a extrapolação da aversão que merece algum exercício de autocrítica. Hoje, no enterro de um veterano político petista ligado ao poder, houve mais uma incitação ao ódio. Incitação póstuma, desnecessária, primitiva. Compreende-se a indignação, a revolta. Sob a escassez absoluta de soluções justas e duradouras, as pessoas rendem-se ao reino do senso comum. A falta de mediadores minimamente confiáveis aguça a sensação de inutilidade. Somos inúteis num sistema político de duvidosa eficácia. Assim ficamos a mercê dos abusos de poder, dos bullyings do Estado, da impotência imposta por uma interpretação retrógrada de democracia.  Só que doença, morte e sofrimento pessoal devem ficar imunes, faz parte da civilidade política. Alguns signos precisam manter alguma invulnerabilidade. A força da sociedade está numa união instável contra o governo. As ruas, o último reduto de oposição. O ataque deveria ser direcionado ao poder, e toda objeção focar num programa que antagonizasse os desmandos, e evitasse desperdícios como catarses direcionadas às pessoas.Tomamos diferenças como ameaças, e respondendo ao ameaçador, nos convencemos de que estamos rodeados de inimigos.  Precisamente ai uma armadilha tomou forma, ainda que sob roteiro pré justificado: licença para odiar. A gestão do partido pode ter sido campeã no quesito promotora de conflitos, e, quase com certeza, protagonizou insuperável programa de poder sustentando no fisiologismo e na corrupção. A última, ao contrário do que todos os indícios apontam, apenas um detalhe do planejamento estratégico. A verdadeira novidade esteve na determinação e na furiosa convicção de que tudo precisava ser destruído para que a nova ordem viesse à tona. Outro fenômeno que ainda ocupará tempo de historiadores e psicanalistas é o incrível séquito de apoiadores acríticos, hoje infiltrados em todos os cantos da administração pública, nas redações e naquilo que conhecíamos outrora como centros de saber. Para estes, defender esta gestão tornou-se, então, questão de sobrevivência. Para todos nós, isobrevivência perigosa, uma vez que o poder migrou da acefalia à posse do grande manipulador. Nota-se então o desejo nostálgico que tomou conta dessas mentes. Bom notar que eles não mais militam, apenas precisam justificar-se por terem sustentando o insustentável e racionalizado o incompreensível. E foi por tanto tempo, e sob tantas formas que hoje sussurram intimamente “longe demais, tarde demais, profundo demais para arrependimentos”. O poder perdeu a moral e a razão, não necessariamente nessa ordem. Difícil precisar o grande erro estratégico: subestimar as instituições que reputavam subjugadas e rendidas ao sindicalismo de resultados? Pegos de surpresa pelo que um desses ministros definiu como “ingratidão” do povo? Ou simplesmente o mais infantil dos equívocos: terem acreditado nos próprios slogans? Que ninguém se engane quanto a capacidade de regeneração do populismo. A República, reduzida a um instrumento partidário e como toda tendência totalitária, escolheriam terra arrasada ao triunfo de um novo consenso. Portanto, a descrença atual do brasileiro não é bem com a democracia, como parece dar a entender a última pesquisa do tema (Ibope/setembro, 2015). A decepção é, antes, com o que imaginaríamos conquistar ao sair de longa e sombria tutela militar autoritária. Na contramão das teses, a história por aqui acontece como fraude e se repete como mistificação.