Livro de coisa nenhuma

Livro de coisa nenhuma

Paulo Rosenbaum

31 Março 2014 | 22h39

 

Livro de coisa nenhuma  

Nada, Do latim, Nata, scilicet res, coisa nascida, da elipse do não
(res) {non} nata) e perda do res passou a significar coisa nenhuma. )

Antenor Nascentes e Aurelio B. Holanda

Foi um tema investigado. Milan Kundera lhe dedicou um capítulointeiro. Falamos sobre o implausível projeto de Flaubert para executar um livro sobre o nada. Dá para entender o fascínio. O nada sempre figurou como possibilidade literária.

Nada pode ser muitas coisas. Zero, nulo, vazio, absolutamente não, sem importância, insubstancial, infinitesimal, dez reis de mel coado, não ser, não estar, em branco.

E, já aí, na insuficiência das sinonímias, começam as digressões. É que, fora o texto técnico stricto sensu, tudo é, ou acaba em digressão.Qualquer narrativa criada precisa desdobrar seus temas, buscar os caminhos do suspense, criar enredos. O escritor francês esperava contornar os caminhos do romance para atingir o reducionismo perfeito?

Onde estaria este esvaziamento criativo? O nada essencial estaria presente, in situ, um trilionésimo de segundo antes do big-bang? O momento que  foi apelidado de singularidade? Talvez, a única verdadeira? Segue a pergunta que obseda todos: o que precedia o nada?

E se o fascínio do escritor francês fosse menos ambicioso e estivesse só pela não possibilidade? Um romance no qual a poesia resignificasse a prosa? Que essa mantivesse seu esqueleto e enredo. Uma história contada sem que o ritmo concedesse demasiado espaço ao formalismo, nem que o deslumbramento pelas palavras fosse diluído pelos temas.

Impossível escrever sobre o nada sem o texto em branco. Apesar da veemente negação de legião de biógrafos, há desconfiança de que o famoso livro sobre o nada tenha sido mais que um presságio inconcluso.

Em 2009, numa dessas artimanhas do destino, o bibliotecário chefe da Biblioteca Nacional da França, François Rivoll, afirmou ter encontrado, junto com os originais da peça“O Candidato”, uma folha com o monograma: G.F. Só. Não havia registro ou indexação. Nenhuma assinatura ou qualquer sinal indiciário do autor.

Teria aquela folha única, potencia para mudar o curso da literatura?

Somente revelado em 2013 “O livro sobre coisa nenhuma” enfim não era só uma página em branco:

“Registro do som da perplexidade. Um dicionário vazio. Era a confissão da angústia. A inverdade do tempo. Era o passado que continha o futuro, represa do presente. O livro sobre coisa nenhuma é a própria vida, porque, incontável, ela é outra singularidade.”