Luz, silêncio que mede o tempo

Luz, silêncio que mede o tempo

Paulo Rosenbaum

22 de junho de 2019 | 22h36

 

Toda fonte, que é tua e perpetua, não atenua

os inauditos decibéis

e nos convence

que mergulhamos convictos

no planisfério e corpos celestes

mantidos em gravidade suspensa

abolindo a naturalidade das coisas

eis que o fenomeno é de tal modo especial

que nem mesmo a explosão persistente exaure

e ainda que a música da radiação de fundo

não possa ser registrada de ouvido

ou pressentida na pele

a luz, silêncio que mede o tempo

e nos obriga a penetrar na escuridão

sob a lanterna das galáxias

nos cálculos erráticos da física

na calmaria aparente

das rotações e arrebatamentos

anotando a cronologia que faz girar o Universo

sobre um eixo imaginário infindo

e, ironicamente, só alcançaríamos a grande semeadura

no macrocosmo do poema, no infinitesimal de cada pena

enquanto a olho nú, sob os telescópios e lunetas

aprendemos que o vasto que agora observas

também te habita, e é resíduo

laico ou místico da inconfessa teologia

a nos arrancar desta risível imperturbabilidade

neste ponto, não somos mais os reféns que eramos

fugimos do destino comum e suas valas

da matéria escura e suas crateras

e intercalamos toda compreensão

com alguma gratidão, impertinente ou descabida

habitando os olhos de quem escuta

para devolver o sentido aos que duvidam.

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