M.O.

M.O.

Paulo Rosenbaum

21 de junho de 2013 | 18h06

Movimento ônibus

 

 

 

 

 

 

 

Passe Livre anuncia que não convocará mais protestos em São Paulo

 

Motivo, segundo o movimento, é a participação de ativistas de causas não apoiadas pelo grupo, como a criminalização do aborto

 

 

Não eram só neoliberalismo e Marx que estavam mortos. O movimento polimórfico que poderíamos chamar de M.O, ônibus (do latim omnibus, para todos, dativo plural de omnis, carro) decretou, à própria revelia, outros passamentos. A organização política de poder nos moldes clássicos de partidos, por exemplo. Ela pode estar se esgotando como modelo republicano. O problema é que ainda não inventaram nada melhor. Neste sentido obedeceram, intuitivamente suponho, os critérios científicos: segundo Gaston Bachelard para testar novas hipóteses a experiência precisa ir contra os consensos. Só há um detalhe: os testes estão usando seres humanos vivos.

O que está vivo de fato é um outro ponto, este vivente. Depois que outros movimentos pipocaram pelo mundo com o grosso de participantes da mesma faixa etária dos que se manifestaram por aqui, parece estar se delineando nova configuração social. Não, ela não será uma revolução nos moldes dos saudosistas retrógrados de 1917, mas decerto será mediada pelo mundo digital, ainda que não se limite a ele. Ela é movida e baseada em inquietação, questionamento, inconformismo e raiva. Estes, motores mais poderosos que todas as demandas específicas juntas.

Ainda sem nome e sem rótulo – os líderes horizontais não são tão aideológicos quanto querem fazer parecer — e seguem a filosofia da extrema esquerda de Toni Negri (leiam mais sobre ele!). Por isso o M.O pode estar deixando escapar das mãos com a mediação das expressões de fúria e violência que todos telespectadores testemunharam. São minúscula fração mas existem e vão querer exibir mais músculos.

O discurso atual é a rejeição pelo adesismo dos conservadores e dos oportunistas dos partidos. Sim, o M.O. prova agora do próprio elixir. Não, os saqueadores e vândalos não são infiltrados. Não são provocadores de direita (este movimento é pós esquerda e parece estar consciente, pelo menos até aqui, da ameaça de manipulação que as agremiações tem insinuado) nem anarquista, mas gente que precisa descarregar ímpetos violentos contra o poder e tudo que este vêm representando. Não adianta gritar “sem violência”, formas cordões de isolamento e, ao mesmo tempo, usar a multidão como álibi para fazer o aríete contra as instituições. Atenção: para eles é democracia direta, sem burocracia. No mundo ideal até que funcionaria. Não é o caso (vejam que voltei rápido à velhice mas não à caduquice). Nunca houve uma sociedade assim, pelo menos não uma que sobrevivesse.

Confuso, perigoso e fora de controle para todos, mas especialmente, para a própria multidão das causas em pauta pois ninguém sabe nem ousa arriscar prever como se desenrola um pensamento deste gênero.

Por sua vez o poder, particularmente o lulo-petismo encontra-se perplexo pois jamais imaginaria que a política do pão e copa pudesse se desintegrar com tamanha facilidade. O que parece inadmissível é a omissão e o descaso. Não se dão conta que isso endossa a anomia. Precisamos de respostas do governo, não de cinismo e pouco caso. Não é bem que o gigante acordou – ainda não será desta vez, continuamos a ser o país do futuro – mas os anões do poder é que encolheram frente à disruptura.

Muito importante analisar com que se ocupa o poder enquanto uma comoção social desta dimensão se expande? Faz reunião de gabinete. Escondem-se nos bastidores. Evitam dar as caras. Temem, com alguma razão, pelos seus pescoços. Mas se vivemos numa República Federativa é lícito se perguntar quem rege agora o País? Não parece que o controle esteja nas mãos das instituições e a massa de manifestantes não têm lideranças nem instrumentos suficientes para operar a regulação.

O exercício do poder exige treino e flexibilidade, aspectos pouco frequentes, quase raros, nos atuais representantes parlamentares. Mas especialmente, atenção móvel, sensibilidade permanente à opinião pública. Gabeira citou hoje Isaiah Berlin: o político precisa ter “bons reflexos”. Talvez. Um tino sensorial. Ao confiar demais nos institutos de pesquisa em que parecia que pouco ou quase nada deveria preocupar a coalizão que governa ou a oposição, ambas agora são despejadas, via denúncia vazia, de seus berços esplendidos. Há reinvindicações pouco plausíveis, por exemplo a Copa. Ela é inevitável com mais de 85% dos gastos já feitos. Porém algum senador ou deputado poderia propor uma das ações imediatas preventivas à paralisia de um confronto mais a frente. Que tal convocar a sociedade para saber se queremos mesmo as Olimpíadas, quais seriam seus custos e quanto significaria de fato o retorno social destes investimentos.

A outra é fazer uma revisão dos critérios de representatividade. Uma constituição mais enxuta e exequível, cuja cláusula pétrea obstaculize para sempre e definitivamente qualquer tentação arbitrária, venha de onde vier. Feita esta reforma e uma mudança na pouco republicana proporcionalidade de representantes — por estado e não pelo numero de habitantes — será possível construir uma agenda mais civilizada que permita a existência de candidatos independentes. Por isso tudo, é totalmente contramão inibir a criação de mais partidos precisamente num momento em que aqueles que existem não construíram, pelo menos até aqui, uma relação suficientemente dialógica com a sociedade.

Aos olhos da mídia internacional, também enlouquecida, não só as opiniões são tão variadas quanto os tópicos de reivindicação, como eles ainda tem uma visão que tende a rotular de longe, algo que nem nós, daqui de perto, temos condições de definir.

Haverão novos lances, num tabuleiro cheio de brasas, mas continuo achando que a única saída é seguir conversando.

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