Mãe Comum

Mãe Comum

Paulo Rosenbaum

10 Maio 2015 | 04h04

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Primeiro pense em suas características analógicas: extensa, viva, ativa e acolhedora. Depois, expanda a imaginação: causa, nascença, processão, proveniência, principio, elemento, objeto, razão, respeito, matriz, manancial gênese geradora, sementeira, primum mobile, vera causa, principio fontanal, causa final, teta, embriogenia, embrião, rebento, germe, plúmula, étimo, núcleo, raiz, levantar, engendrar, criar, desbrolhar, induzir, inspirar, criar, influir, motivar, proporcionar, fecundação, infundir.

O próximo passo natural seria tomar maternidade como efeito: parto, rebento, primícias, criatura, sóbole, ceifa, colheita, safra, messe, seara, aroma, derivar, emanar, hereditário, profetício, fontanal, fruto, ninhada, infante, descendentes.

Uma, antecedente constante, a outra, consequência constante. Há uma mãe para além da vida que gera. Mais abrangente, mais dispersa, e muito mais preocupada que as suas, as nossas e as vossas. Há uma mãe que mesmo não sendo mãe, provê acima de todos os limites e para todos os gêneros.

Uma mãe que não é só revivescente e regeneradora. A progenitora que inexaurível, nos nomeia desde o imemorial. A mais multípara dentre todas. Aquela que mais ramifica e cujo terreno não infindo e sem margens, exala a perpetuação.

Uma mãe, cuja obra prima é um produto coletivo e indeterminado. E, dentro da infinidade de pólens erráticos e lençóis freáticos, recicla as gerações subsequentes.

A mãe de todas as mães é só uma natureza negligenciada. A galáxia máxima. A forma gestacional. Cores que mudam e transmigram. Ocupa o mundo sublunar, o uranorama, o cariz do céu.

Tua é a gravidade presente e teu domínio se estende à própria Terra. Às custas de bilhões de anos cresceste e fizeste crescer neste mundo transitório: acaso dos dados ou um plano ignoto? No conjunto de vidas que te povoa, a máxima soma, nosso bioma. E é em teu seio e superfície que, através das gradações progressivas, todos permanecemos.

Tuas filhas e filhos, herdeiros longínquos desse ventre ininterrupto ainda te desconhecem. Te tomam como entidade distante e autônoma. Ainda não notaram a sucessão: as criaturas que cuidam de quem lhes deu origem. Tua natureza amazona e misteriosa, mostra o acabamento e o capricho com que o feminino se ocupa em todos os recantos.

A mãe natureza não tem ciúmes: saúda todas que, como ela, destinam-se a originar e cuidar. Para as mães ativas e aposentadas, vaidosas e hippies, as únicas e as coletivas, as filósofas e as pragmáticas, as que nunca mais veremos, as que já foram e as que estão chegando, as amáveis e as severas, as sozinhas, as que jamais criaram, as que não puderam cuidar, as que se perderam e as que se isolaram, aquelas que nunca conceberam, as que mudaram e aquelas que visitamos hoje.