Moishe Aharon ben Chava (Maurício Rosenbaum)

Moishe Aharon ben Chava (Maurício Rosenbaum)

Paulo Rosenbaum

17 de julho de 2021 | 19h38

 Moishe Aharon ben Chava

Isso nunca será um obituário.

Maurício Rosenbaum OST 1996

 

 

 

 

 

Podes escutar? Ainda te espero, estou em casa. Para assistir o jogo do Timão. Já assinei o pacote. Para um penúltimo kidush. Você ainda está aqui para mim?  Pude te ver, em sonhos, e estavas à beira da invisibilidade. Era só um sonho, destes que assustam. O tempo sempre tem sido uma medida pequena para tua presença. Você me ensinou a esperar. Mostrou como rir. Não só de si mesmo. Mas de tudo que fosse pretensioso, doutrinário e ritualístico. Você é um arquiteto, mas sempre foi mais hábil na arte do improviso. Eis um urbanista que sonhava com ilhas rurais. Mas tua especialidade era mesmo a leitura aguda do mundo abstrato. Na detecção das efemérides inusitadas. No argumento sonoro, desconcertante, nas brincadeiras da linguagem. Queria saber como você conseguiu prever o ardil das neuroses? Sei que é mais do que tua simpatia pelo non sense. Deve ser a alegria do desprendimento. Teus recebimentos e insights, coerentes com essa empatia inata. Como Aarão, você precisava pacificar para  unir.

Teu talento sempre foi sentir antes o que os outros nunca enxergaram. E só ficas sério quando ecoas Maimônides e a filosofia hassídica: “tem que rir a cada quinze minutos”. A frase que para leigos, era sem sentido. Ridicularizar o desimportante, desprezar tudo que não for lúdico. Um outro achado seu: a beleza da displicência. Você enxergou vida nas coisas irrelevantes. Para você, até os os objetos tem uma vida autônoma. Tua luta por uma paz tardia, a única possível, aquela da qual não se esquece. Do teu distante passado das lutas sociais, tua síntese foi ficando auto evidente: trabalho e arte acabam deformadas pela política. A ideologia é uma lente senil, que distorce a realidade. Deforma o sentido da permanência. E dai a síntese, só a ciência infusa da justiça poderia autenticar o altruísmo. Por isso, você insistiu: “afaste-se do que não te cabe”. Além do derradeiro conselho:

“Política? Nunca mudou, nunca mudará. Dedique-se aos negócios, aos escritos, ao ócio.”

Você também trouxe para os teus uma outra espécie de compreensão do mundo prático. Fundou para além do teu núcleo de contatos imediatos, a vinda de uma mudança que ainda não chegou: a leveza da rotina, o estoicismo prático e o desprezo pela cultura do sofrimento. Foi quando adquiriste as passagens para as passargadas elevadas. Um paraíso constituído por sítios imaginários. Mistura de jardins londrinos com estradas vicinais caipiras. Tua “Nova Inglaterra” não precisará mais esperar por todos nós. Reside aqui. Ela nos reunirá não como família, mas na grande cúpula da congregação sagrada. A utopia possível, aquela na qual você acredita como ninguém. E, cedo ou tarde, reconheceremos o que você vive a dizer:  as leis não bastam, chega de revolução, de reformadores heroicos, de grandiloquências narcísicas, viemos civilizar o mundo através do afeto, e é por isso mesmo que sempre foi difícil nos tolerar. Nos últimos tempos, você vinha elaborando outro sistema de notação,  um tipo original de benevolência. Queres criar uma nova terminologia?  Para os sonhos de reerguimento?  Das pregações livres de dogmas. Da ridicularização amena dos fanatismos. Dos doutrinadores de ocasião.

Lembras quando pintou as luzes como Chagall? Ou o amarelo-terra de Van Gogh? E pinceladas transversais? Os dinossauros-grúfalos com consciência?  Então, por mais invulneráveis, não podemos mais negar o trágico que tua ausência nos imporia. Perdão. Trágico nunca, apenas uma branda melancolia. Se exigíamos que ficasse mais era só porque sabíamos  da tua capacidade de nos achar. Em qualquer lugar. No espaço tempo, agora abolido. Mas se a escolha for a partida, que a direção seja unívoca, clara, rumo ao grande “quem”. E eis que tuas dúvidas sobre o que era o outro mundo foram todas respondidas. Menos uma: o que faremos nós?  Precisamos do teu olhar e discernimento. Entender como uma fé não intelectualizada conseguia superar a pressão dos ceticismos. Se precisamos te encontrar é para saber mais sobre o segredo do teu apreço pela vida. Você, como Leon Bloy, tinha aquela “imensa curiosidade” de saber o que se esconde atrás das cortinas. De onde nenhum visitante regressou.  Mero despiste, você sempre soube. O ‘Grande Quem” você conhecia, um dia compartilhará conosco.

Como poderemos esquecer das tuas danças e sapateados, tuas experiências com sopa de galochas e o ingênuo pedido de isqueiro para bombeiros que quase te rendeu uma detenção? Teu exemplo de fortaleza não apagou tuas indignações. Como protestos privados. A fúria contra as autocracias disfarçadas. Tua crítica arguta contra a excesso de seriedade.  Quantas vezes tentou nos ensinar sobre as saudades do paraíso?  Lugar que já foi ilha, já foi agricultura, já foi teu filho Sérgio que te antecedeu. Um Gan Eden que nos ofereceu uma visão de fora dos trópicos. O Jardim do Éden, como escreveu Gershom Scholem,  pode ser o símbolo da própria felicidade. Tua arquitetura de objetos indiretos e soluções geniais. Teus arranjos sofisticados pela simplicidade. Teu tirocínio compreensivo. A busca, como a de Tolstoy, por uma justiça baseada na espiritualidade pessoal. Assim como a relação com os céus, pessoal. Tudo isso foi só para te dizer que que se isso fosse uma separação ela não terá sentido nem a mínima duração. Já me ensinaram, primeiro a união, depois a havdala, o apartamento, temporário. Forjaremos um novo tempo até este alcançar enfim o encontro da permanência.

Para sempre, Pai, para sempre.

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