Monte Santa Helena e o manifesto dadaísta.

Paulo Rosenbaum

21 de fevereiro de 2015 | 22h06

Rezavam os estudos que a explosão do Monte Helena nos EUA em 18 de maio de 1980 no estado do Washington (cerca de 90 Km. da cidade de Portland, Oregon, USA) iria provocar um micro cataclisma e a natureza poderia levar alguns séculos para se recuperar. Menos de um quarto de século depois, e mais algumas explosões de menor impacto, testemunhou-se um fenômeno surpreendente. Uma reversão na cronologia das previsões. O suficiente para que uma inacreditável adaptação do bioma tivesse lugar e uma recuperação se impôs, bem mais célere e inesperada do que se pensava. Ao contrário do que inspirou criticas em espíritos contra-científicos, não desacredita a ciência, apenas a qualifica mais. Faz parte intrínseca dos cânones da ciência o teste de hipótese, o espírito aberto, a retificação de rumos. Pois os estudiosos reinterpretaram tudo e ainda não terminaram nada. Ciência e a arte são sempre propositalmente inacabadas. Há sempre mais perguntas que respostas. Isso desmonta teses apressadas daqueles que querem tudo esclarecido para ontem. Grosso modo, toda plasticidade é maior do que se pensa. A maleabilidade também por que surgem novas formas de contemplar o problema. Isso não significa ignorar ou adotar padrões estoicos em relação ao que se passa no mundo prático. Dai, algum paralelo com nosso País é cabível.

Os sinais sísmicos estavam todos lá. Incompetência, populismo e arrivismo de resultados. Por isso, o atual cafundó. Não adianta evocar a herança maldita pretérita, choque com o asteroide, ou a criação dos Cosmos. Algum opositor poderia se habilitar e avisa-los: vocês são responsáveis pelo estado das coisas. Há fadiga de mentiras, e o País só caminha porque é ainda um pouco autossuficiente em relação à anomia política. Por isso há espaço para encontrar uma diferença significativa entre a catástrofe que vem sendo a atual administração federal e o catastrofismo hiperbólico daqueles que acham que tudo acaba na quarta feira de cinzas. O Brasil não acaba tão fácil, nem mesmo sob a batuta de uma orquestra tão inoperante e desafinada como a que vêm regendo o País.

Mas eis que um grupo de intelectuais lança um manifesto. Para perplexidade geral , ele não se ocupava dos escândalos que varrem a América Latina. Nada sobre as travessuras e excessos do Maduro, nenhuma palavra sobre o assassinato de Nisman. Ao lê-lo percebe-se o que significa ter descuidado da educação para doutrinar alunos. A cátedra foi tomada para administrar ideologias. Por que não prestamos mais atenção nos rumores de uma predominância política-partidária não só nefasta, mas sobretudo acrítica. O manifesto é uma escandalosa e inútil lista de negação de fatos. Um elogio à invenção e ao dadaísmo político. Uma obra teatrológica litigante. Ali se acusa um grande golpe prestes a irromper, que alinha os eventos de Jango e Getúlio Vargas, sob a direção do capital internacional. Pensamos hipóteses variadas: tergiversação arquitetada pelo tal Santana. Menos: estratégia desesperada de manter algum benefício fiscal.  Terceira: eles realmente acreditam em tudo aquilo que subscreveram ali. Essa última, a hipótese mais melancólica. Pois se, depois de tudo que já se viu, do que já foi provado e anotado, eles permanecem em negação para recusar enxergar o momento grave da República é porque, apesar de provável erudição de alguns signatários, pouco aprenderam com o empirismo de fatos públicos e notórios.

Mas, já que emprestaram seu prestígio para causas tão precárias é porque já não se importam com mais nada. Abdicaram da preservação de seus nomes e do status quo que um dia já gozaram. Neste caso, deve-se entrar na seara de qual a função do intelectual na sociedade.

Afinal intelectuais pensam ou militam? Se pensam, não poderiam militar. Se militam, significa que renunciaram ao fundamento do oficio: o pensamento analítico e crítico. Além disso, cientistas políticos e filósofos nunca estiveram dispensados de prestar atenção aos critérios de honestidade intelectual. Agora, se a nova função é só apoiar o regime e ajudar a alardear teses conspiratórias, são qualquer outra coisa, ainda sem nome.

 

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