Monte Santo: vórtice do mundo

Monte Santo: vórtice do mundo

Paulo Rosenbaum

04 de junho de 2013 | 23h08

“Paris, 1886. O último imperador brasileiro, Dom Pedro II, visitava a Academia de Ciências da capital francesa e ficou surpreso quando se deparou com sedimentos que pertenciam a um dos maiores meteoritos já encontrados na Terra. Ele ficou atônito ao descobrir que a pedra original fora encontrada no Brasil – e ainda estava lá. O Meteorito de Bendengó permanecia, desde 1784, quando foi encontrado, na pequena Monte Santo (BA).”

A história de uma pequena cidade pode exceder a imaginação. Que outro lugar do planeta poderia unir um dos maiores meteoritos que já baixaram à Terra, a guerra de Canudos e o filme antológico de Glauber Rocha?

D. Pedro II ficou deslumbrado com a pedra de Bendegó, a enorme rocha mista que desceu do espaço no século XVIII. O monarca queria transporta-la, depois consultou especialistas para construir um palacete ali mesmo, que também abrigaria sua coleção de minerais.

Orson Welles concebeu a célebre transmissão radiofônica da Guerra dos Mundos, quando ouviu histórias da região e Steven Spielberg por pouco não realocou as filmagens de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”. O roteirista chegou a visitar o local, mas a região foi descartada pelas dificuldades operacionais. Surgiram rumores, depois desmentidos pelo INPE, de que a região era o “triângulo do sertão baiano”, com eixos eletromagnéticos turbulentos semelhantes aos que pairam sobre as ilhas Bermudas.

Mas absolutamente nada disso se compararia à recente organização do “Museu Nacional dos Tributos”. A pequena cidade baiana foi mais uma vez eleita como o vórtice do mundo. Concebido e construído sem alarde durante anos, o Museu ocupava uma área de mais de 10.000 metros quadrados em Monte Santo. Além de praça de alimentação, locais de hospedagem e outras comodidades, o local havia sido projetado para receber numa imensa área externa a céu aberto. Mas a razão de todo esforço estava na livre circulação de mercadorias e no primeiro banco do mundo sem taxas de juros.

O fundador era um descendente do líder insurreto de Canudos. Hábil, conseguiu isenção fiscal, incentivos da lei Rouanet e doações anônimas para erguer a obra. Quando o complexo ficou pronto, e o propósito do empreendimento foi anunciado, a região ficou abarrotada de gente.

A iniciativa foi imediatamente atacada. Advertido e intimado, esperava-se já nos primeiros dias pela resposta truculenta do Planalto. Para os inspetores especiais designados por Brasília, Conselheiro Neto tocou em duas instituições nacionais invioláveis.

— De onde ele saiu? A qual partido o sujeito está filiado?
— Aparentemente a nenhum. Em depoimento, disse que o movimento dele é laico e não governamental. Pelo que levantamos quer criar uma zona livre de bancos e impostos.
–Do Estado ninguém zomba! Conheço esses anarquistas. O fanático quer chumbo? Chame a Guarda Nacional.
— Não seria melhor negociar? São loucos, mas fazem resistência pacífica. E estão desarmados. Ele é descendente de um ícone, isso pode pegar fogo.
–Chame reforços
— Certeza excelentíssima? Não se sabe onde pode parar…os índios, a mídia e até essa classe média reacionária que estamos criando está apoiando, vai virar outro
— Cala a boca rapaz, eu quem decido!
Cercado por tropas federais, o único descendente vivo do líder de Canudos fez a declaração poucas horas antes da invasão. não aceitou filmagens, mas escolheu falar ao repórter correspondente de um jornal paulista:
“O senhor vai poder testemunhar com os próprios olhos como a história se repete. Monte Santo e Canudos sempre serão atuais.”

Tendências: