Nem tudo foi dito

Paulo Rosenbaum

10 de março de 2021 | 16h41

Encômio aos excelentíssimos homens e gestores públicos

Nem tudo foi dito

Mas calculado, pensado, desperdiçado,

Resta-nos apenas o espaço para renegá-los

Cansamos das desculpas, declarações, dos ditados apócrifos

Nem tudo foi dito,

Mas repisado, manipulado, esquecido

A amnésia exerce a tirania sobre o passado, recém apagado

Tua voz defende o que supúnhamos superado

Mas, não. Nem tudo foi dito

Toda epidemiologia totalitária

Todo álibi a serviço da força, da repressão

O autoritarismo, sob o justificacionismo da patologia

Retirar direitos, restrições excessivas, até capitularmos pelo pânico

Abriram-se as alas para o progresso do regresso

Tua voz pode ser sentida naqueles que esperam vaga

Ali, onde os verdadeiros abnegados agem

E no vácuo das tuas condenações

A ficha corrida com um plano Marshall de desvios

Até quando?

A auto regulação do sistema preserva o próprio

Esmaga a quem deveria servir.

É o sujeito que precisa se proteger das instituições

Inversão para bem além do paradoxo

Nem tudo foi dito, ainda.

O que precisava ser dito nos inibiria para sempre

Do palanque, da tribuna, ou das luxuosas sedes dos partidos

Constranges a vida com refrães empobrecidos

E nos conduz à longa prancha que desemboca em alto mar

Já sabemos o que vocês querem

E pensar quantas vezes concedemos nos sufrágios,

Não por empatia, medo ou inércia

Nem mesmo pelo bem comum,

Foi por pura esperança assimétrica

Agora, tardiamente, sempre é tempo para recusar

Quem pode aceitar o tecido social induzido ao esgarçamento?

Destroçado por acordos melífluos, redigidos com sarcasmo

Pautados na conveniente edição do dia anterior

Nas mídias que militam uníssonas, tanto faz para quem

Na diversidade cosmética que monopoliza a opinião pública

Através dos influenciadores do senso comum

Lemos os textos, matérias pagas, que prenunciam amanhãs

Com o injustificável apetite de quem já nem consegue abocanhar o acúmulo

Nem tudo foi dito

Mas, à tua revelia, repensado

E sobre tua sombra desenhado

De quem é a culpa pela fragorosa inépcia?

Quem fez questão de exercer mandatos?

Vossas atribuições foram usurpadas por narcisismo?

Temos castas que estão acima das sanções?

Nem tudo foi dito

Pois vai um aviso: a mordaça voltará como bumerangue

Das bocas sem voz

E caso contes com nossa vaga memória

Refaremos o trailer

Que outrora asfaltou teu poder até a vitória

Até repassar as cenas

Dos tribunais do vexame, das votações secretas, de álibis esfarrapados

Para propagar tuas anti-façanhas, de dia e de noite

Não era com o que contavas?

Pois a luta se fará nas cidades, nas montanhas,

Dentro e fora dos espaços públicos aparelhados

Nem tudo foi dito

E não estamos mais nas cercanias das cidades

Nem ilhados fora das jurisdições,

Logo desceremos aos milhões

E não será para louvá-los

Ou engrossar teu coro de idolatras

Mas para dizer não à sombra na qual mergulharam o país

Para desmentir tua sanha heroica

Ou vos parece crível nossa aceitação passiva?

Achas mesmo que compramos vossa mitômana versão de democracia?

Somos dotados de uma fibra estoica

É a necessidade inspirada na convicção

De que a liberdade é a única moeda aceitável

É com ela que propagaremos a responsabilidade

Assumiremos o que nos tem sido negado

Pois notamos que é nossa única e última atribuição.

Exclusiva, definitiva, inegavelmente nossa.

Nem tudo foi dito

Porque emancipações são partos difíceis

E as gestações costumam nascer das explosões

Avalanches irreversíveis em tempestades inesperadas

Resultados de hermenêuticas incompreensíveis.

De garantismos sustentados por jurisprudências negacionistas

É dali que nascerá a insurreição

Que paralisará a guerra pela hegemonia da linguagem

Nem tudo foi dito

Homens públicos, incompetências privadas

Tiranias exercidas por marionetes, postes ou algoritmos

E templos miméticos de injustiça que se espalham com a pompa

Das palavras, palavras, palavras, e palavras ressonantes.

Que nem com todo esforço semântico

Tornaram-se relevantes

Nem tudo foi dito, já que agora estamos com a palavra

E tua sorte foi lançada num torneio sem mérito

Nem tudo foi dito porque os ossos por ti enterrados

Ainda estalam dentro de sepulcros improvisados

É que existem crimes que só prescrevem através de canetas pegajosas

E quem sofreu continua gritando através do subsolo,

Mesmo aqueles instalados em covas bem rebocadas

Nem tudo foi dito porque, involuntariamente, tuas mãos revelarão

O que nunca deve ser pronunciado

E entregarão o sangue que te persegue

Nem tudo foi dito porque perdemos o medo

Não tememos mais o exílio

E a submissão, não é mais uma opção

Enquanto vocês simulavam ofertar liberdade

Éramos nós que lutávamos contra o arbítrio

Nem tudo foi dito porque o pesadelo nunca falha

Dura até que o sonho da pacificação se sobreponha

Acabamos de lembrar do “nós contra eles”

Dos abusos, da linguagem caricata, do desprezo

Do abandono de populações inteiras compradas com cala-boca mensais

Do represamento das insurreições com gorjetas

Da oposição fantoche

Enquanto o Estado descia

Resultados de emergências artificiais

Enquanto as reais jamais são contempladas

Para que conscientizar se é possível ordenar?

Nem tudo foi dito, é verdade, pode demorar

Mas te faremos discernir o que você nunca poderá entender

Afastaremos você e teus discípulos

Hábeis em criar anti-destinos e no culto à personalidade

E mundos nos quais as vítimas permanecem emudecidas

Por ora, estamos subjugados, mas amanhã

Amanhã podemos não te dar posse

Hoje aflitos, amanhã saberemos quem nos coagiu

E nos forçou a aceitar os injustos impostos

Hoje calados, amanhã libertados por espalhar teus erros

Nem tudo foi dito

Mas temos uma vantagem

Sabemos que, até aqui, nenhuma tortura fez a história retroceder

E tuas manobras podem terminar em nada

E apesar dos teus idolatras e dos teus enganos bem articulados

Não cederemos à decomposição, ao clamor pelo conflito

Antes, ergueremos muros sem pedras

Com as barreiras da verdade que tanto relativizas

E se nem tudo foi dito

Hoje diremos tudo, de vez, até o último fôlego.

Sem que ninguém interrompa.

E o que ao poder nunca foi dito?

Será um eco

O eco que invadirá a casa das omissões.

Para regenerá-la em ações.

E vossas digníssimas presenças

Serão as mais comemoradas ausências.

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.