Ninguém quer golpe, bastaria oposição.

Paulo Rosenbaum

02 de fevereiro de 2015 | 17h57

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Alguém escreveu na parede do cemitério. “Isso é um partido?”. Não acredito que o autor tivesse em mente uma analogia com a famosa tela de Magritte, tampouco uma crônica política sintética. “Isso é um partido?” talvez nos diga sobre o colapso das escalas de representação. Não sabemos se procuramos a resposta em La Paz, Caracas ou Brasília. O medo de ser tachado de golpista, terceiro turnista, direitista, revisionista parece mais forte do que a ousadia de expor os fatos. Portanto, não é espanto que a surpresa e a indignação permaneçam outsiders, e apareçam mais nos muros de necrópoles do que nas revistas universitárias.

Ninguém quer golpe, bastaria oposição.

Isso não é um partido, porque partidos assumem responsabilidades e não costumam respaldar desfalques no balanço. De um partido espera-se declaração de impedimento, não ocultação sistemática dos conflitos de interesses. E quando se trata de ocultar o mal feito o que muitos se ressentem é o desprezo. Numa escala maior a tradução seria “quem se importa com a opinião pública? ”.

O desejo não é nem de retrocesso nem de golpe, mas a perplexidade com o eclipse crônico das forças de contrapeso. Sob uma organização partidária, aloprados são colocados à parte, isolados, desprestigiados. Não é normal nem razoável que estejam bem protegidos no seio da Republica.

Isso não é um partido, porque partidos nunca poderiam escamotear erros.  Ou será republicano afundar o País pelo  projeto de poder? Isso não pode ser um partido, já que, por definição, eles deveriam obedecer a constituição e rezar pela divisão de poderes. Não é partido a entidade que faz desagravos a condenados influentes que afirmaram que “fariam tudo de novo”.  E por que fariam de novo? Porque para fazer sentido precisam acreditar que estão em plena luta. Que os inimigos – entre eles sociedade e democracia – estão em plena conspiração. De alguma forma acabaram acertando, as instituições que já consideravam subjugadas, resolveram respirar. A ressurreição em curso não se deveu à birra, competição ou pela ideologia programática, apenas sobrevivência.

Não é mais possível encarar entidades como partidos quando a realidade se incumbe de desmascarar os compromissos assumidos como slogans de campanha. Todos fazem? Neste caso, não se pode olhar nos olhos de nenhum. Se há uma diferença entre seita e agremiação política? Uma seita nunca será um partido, porque diferentemente da primeira, não deve obediência cega a ninguém.

O problema é que, com a luz a meio pau, caudilhos, populismo e militantes crentes projetam sombras idênticas.

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