No último poema de 5781

No último poema de 5781

Paulo Rosenbaum

06 de setembro de 2021 | 12h17

Eis que no ultimo poema do ano

leremos os sinais, aqueles que ocultamos,

nos objetos ritualísticos,

na matéria que parece irrelevante

Durante o último poema do ano

Em visões sucessivas, projetaremos, em céus particulares

nas telas internas, e nos menores símbolos

os rostos daqueles que sumiram,

que nos escaparam por um fio

ceifados sem que soubéssemos,

ou déssemos conta de suas partidas sem aviso

aqueles que estavam em distâncias intransponíveis,

Neste último poema do presente ano

é mister aspirar pelo regresso dos que amamos,

mas, também, dos que deveríamos ter aprendido a tolerar

Enquanto lemos o último poema do ano

os corações, que normalmente balançam sob tumultos

Fazem revisões, desfilam à exposição das vulnerabilidades

recolhem-se, estoicos, à passagem das turbulências

sem ceder ao caos das aparências

No último poema do ano

Estaremos todos juntos, aqui, ali, ou em Jerusalém

Aqui, ou nos desafios que não poderemos mais numerar

Como os decretos, incognoscíveis,

Que não sendo apenas humanos,

Vem do Alto, e com eles, esticamos a peneira da colheita

Durante o último poema do ano

Ficaremos próximos, pela paz

Mas também sentinelas, atentos às lutas

Solidários como quem soube

Que estamos sempre perto do risco

E das transformações perigosas

Enquanto passamos através deste último poema do ano

Podemos enxergar o grande tecido, a coisa extensa

Aquela que contém a totalidade das pessoas

E que  nos ajeita no mesmo tapete

que oscila, sob a inconstância do vento

E no capricho errático do tempo

Neste último poema do ano

Não há só o shofar, nem só o som do chifre do carneiro

Mas, fragmentos musicais

que, de ouvido, decompomos para formar hinos

O hino que disputa a vida

Contra as forças do atraso e da violência

Que estão por todos os lados

e fizeram sumir o meridiano dos centros

Ainda no último poema do ano

A liberdade mostra-se arredia

E merece um penúltimo esforço

Uma miríade de canais abertos que irrigam

com sementes as tempestades sem controle

E no ultimo poema do ano

O aniversario da humanidade fará emergir

o sopro de vida que neutraliza pulsões e tiranias.

Dentro do último poema do ano

encontram-se liberdades em expansão,

dúvidas sobre o extensão do livre arbítrio,

bem-aventuranças em estado de hibernação,

e, se desconhecemos o porvir do multiverso

temos uma e a mesma certeza

a correnteza é o solo que temos em comum

e, que neste último poema do ano

Às vésperas de 5782,

os igarapés formem uma confluência imprevisível

no irretorquível livro da vida, a árvore que nunca termina,

Quando as lembranças dos nossos queridos

formarão uma galeria dos afetos

em permanente e ininterrupta exposição.

Shaná Tová!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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