Novíssima República

Paulo Rosenbaum

10 de março de 2016 | 15h32

No sempre surpreendente Brasil atual abundam concepções que são muito peculiares ao universo lulopetista e a todos aqueles que vem se destacando na defesa desse governo terminal. Contornar expressões que impactam o senso comum, distorcer condições e contextos e coloca-las sob suspeita é uma espécie de exercício de engano sistemático. Esse é o plano B, já que quase todas as apostas autocráticas malograram enquanto o partido afunda no mal feito movediço gerado pelo desejo de poder. O abuso destes recursos, que adulteram o sentido, e distorcem os procedimentos democráticos, se tornaram a estratégia predominante da atual gestão federal: apropriação indébita está sujeita a neo conotação “projeto social”. É possível que liberdade de expressão passe a significar controle da imprensa com censura. Democracia deve ser sinônimo de hegemonia do partido. Todos são iguais perante a lei parece ter sido igualado a “companheiros investigados merecem inimputabilidade ou ministério”. Condução coercitiva pode significar violação do Estado Democrático de Direito. Investigação parece ser sinônimo de abandono da presunção de inocência. E, finalmente, a grande sacada: obedecer a constituição é golpe.

Acredita-se que o primeiro passo para o surgimento de uma nova cultura deve ser ajusta-la à linguagem. Na linguagem de Gramsci, fonte de inspiração para fundamentalistas locais, a tática é promover o que ele classificava como “hegemonia cultural”. Todas as correntes políticas, com maior ou menor domínio teórico, buscaram essa perspectiva. Para o sucesso dessa empreitada o domínio do sistema educacional seria vital.  Encaixa-lo, perverte-lo e impingi-lo é a chance do projeto. O modelo ajudou muitos tiranos conseguirem que sociedades inteiras fossem submetidas ao arbítrio, mesmo quando se imaginavam livres da ameaça. Para tanto deve haver um museu de palavras que caíram em desgraça. Foi assim que depois da queda do muro de Berlim a palavra “comunismo” foi sendo apagada dos partidos e discursos. É assim também com outras expressões como “antissionismo”, atualmente usada consensualmente por esquerda e direita para escamotear a judeofobia, associada ao comprometido termo antissemitismo, também fazem parte destes deslocamentos estratégicos para ocultar termos desgastados perante a opinião publica. Neste sentido, recomendo a leitura do artigo de Roger Cohen do NYT, “Um antissemitismo da esquerda” traduzida e reproduzida neste Estadão. (http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,um-antissemitismo-de-esquerda,10000020266).

A palavra “impostos” é outra que tende a ser suprimida dos léxicos para dar lugar ao termo “contribuição”. Afinal, contribuir, além de soar melhor, reveste-se da aura de espontaneidade participativa com que o Estado precisa contar para enfiar a mão no bolso dos contribuintes. O famoso conceito de Marx  “luta de classes” também foi se dissipando no caldo ralo de expressões como “justiça social” e “isonomia econômica”. “Nós e eles” substituiu com maestria o “ricos contra pobres” pois, sob o manto do sujeito indefinido “nós e eles” podem ser quaisquer agentes sociais, além de sugerir uma proximidade empática com o “nós” contra um distanciamento calculista do “eles”. Substituir terminologias e conservar, na maioria das vezes, o mesmíssimo conceito; para muitas dessas dissonâncias, dá-se o nome equivoco de politicamente correto.

Quando lamurias generalizadas fazem o coro de que nos faltam lideranças criveis, endossa-se a busca inconsciente por personalidades magnânimas quando já deveria estar evidente o desastre quando se trata de idolatrar caudilhos populistas, elegendo postes e satélites. O hiato de poder que temos pela frente é temerário, mas, comparado com o status da ocupação atual, que venha o vácuo. Apenas a maturidade da própria sociedade proporcionaria o nascimento de lideranças consistentes e não personalistas. Em 13 anos a confiança cedeu lugar a um brutal ceticismo, onde a palavra dos que nos governam não tem mais nenhum valor, salvo uma interpretação reversa. A passagem da indução subliminar para a explicitação da beligerância por parte daqueles que estão prestes a deixar o poder não deveria nos espantar. Espantoso mesmo é a passividade com que a aceitamos. De forma irreversível, e contra a marcha do autoritarismo que quase nos empareda por inteiro, as instituições avançam junto com a população.  Se os agrupamentos intolerantes desejam levar a estratégica às ultimas consequências terão que re-pactuar toda a linguagem. Sugiro que publiquem um glossário próprio, para uso exclusivo entre quatro paredes, dentro e fora dos bivaques que frequentam. O importante é que depois de todas as dores deste prolongado parto, o próximo domingo está prestes a dar a luz. Nascerá forte e será uma menina, Novíssima República.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/novíssima-republica/

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: