O anexo secreto de Anne e os fantoches contemporâneos

O anexo secreto de Anne e os fantoches contemporâneos

Paulo Rosenbaum

18 de janeiro de 2020 | 07h05

Museu Anne Frank – Amsterdã Anexo secreto – 16 01 2020

 

 

 

 

Estava exatamente na casa onde está o acesso ao “anexo secreto” — conforme Anne Frank o descreveu — e foi de lá que avistei a escada. não era apenas fina e com inclinação forte. Ela era estreita, lúgubre, constrangedora. Em seguida chegaram notícias de que alguém no Brasil fez um ridículo discurso alusivo ao ministro de propaganda nazista. Naquele preciso instante, ainda dentro da casa que Anne habitou, aquilo não me abalou e surpreendentemente não me levou ao surto histérico como ocorreu nas redes sociais.

E, por que não?

No idish kait  (a cultura judaica) não existem “coincidências”, nem semânticas nem de outras espécies, em tudo há um propósito, ou necessidade. Foi quando resolvi entrar no claustrofóbico anexo secreto. Não, não era lugar que escondeu a menina que se iludiu com um futuro promissor de esperança, liberdade e tolerância.

Entrei no anexo, mas no anexo onde os homens guardam seus fantoches usados.

O anexo secreto sempre foi este lugar que guarda a saga repressiva, os impulsos inconfessos, a perversão e o mal. Enquanto estamos em museus preservando a memória, os governos e Estados nacionais escondem e varrem seus incômodos e inconveniências. O anexo secreto é a metáfora política que fez com que o antissionsimo, o disfarce sob medida, hoje encontrado para justificar e racionalizar o antissemitismo, viajasse entre os continentes. Ele está no aqui agora para mostrar seus dentes para os vivos, enquanto a outra face sorri para os mortos. Enquanto ninguém se cansa de homenagear — tributos justos aliás — os que tombaram na Shoah, os vivos ficam no descampado. Em muitos Países os judeus europeus e mesmo nos EUA são obrigados — mais desta vez — a viver disfarçados, com medo, na defensiva, em alguns rincões sob um quase anonimato. Metáfora? Exagero? A diferença entre a metáfora e a realidade pode ser um número sulcado na pele. Que tal?

Ah, mas medidas estão sendo tomadas. Não com a intensidade e a celeridade necessárias.

As mentiras prudentes de autoridades não mais disfarçam o mal estar. Há um incomodo para fazer as inadiáveis perguntas apropriadas. Quem está insuflando o antissionismo? Quais forças políticas atuantes vem se beneficiando deste contexto? Por que os governos (de extrema esquerda associados ao islamo-fascismo) e os de extrema direita (hoje menos numerosos)  tem medo de confronta-las? As respostas não podem ser dadas sem provocar um escândalo maior do que as indagações.

Não falamos do passado ou do futuro. Mais uma vez: está acontecendo agora. Bem na nossa cara enquanto uma enorme de legião neutros e omissos emulam um espanto. Exatamente como gerações passadas fizeram. “Como isso pode acontecer bem nas nossas caras?”

Neste exato momento o lamentável evento no Brasil é quase um fato parasita — que sem duvida será muito bem explorado politicamente, mas não compreendido em todas as dimensões implicadas — se comparado à realidade de solo na Alemanha, França, Bélgica, Suécia e em muitos outros lugares do mundo.

Deveríamos estar imunizados contra a perplexidade, mas eis uma vacina que nunca será inventada. Para ir além da barreira do anexo secreto ela teria que penetrar na alma, e, parece, muitos governantes a perderam para o populismo e o imediatismo instrumental que supostamente os protege.

Enquanto a resposta — se é que ela existe — encontra-se no anexo secreto, aquele que, no interior de cada consciência, guarda as recordações mais insustentáveis.

Tudo revelado: a leveza do ser já não é.

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