O Ano que Nunca Enfrentamos (para ler ouvindo Beethoven)

O Ano que Nunca Enfrentamos (para ler ouvindo Beethoven)

Paulo Rosenbaum

31 de dezembro de 2019 | 21h52

Mauricio Rosenbaum,1998 (tecnica mista sobre papel)

 

 

 

 

 

 

 

Não foi só a polarização. Não foram só as caras fechadas, nem as hostilidades cruzadas,  nem os recessos em ambientes pouco amigáveis. O ano que nunca enfrentamos, sempre com o pé atrás, com punhos justapostos, na tensão de uma solenidade que, sabíamos todos, não era passageira.

O ciclo poderia ser só uma repetição, a infinita sede por rotina e a sombra imprópria de passos que, hoje é claro, não são mais nossos.

Por que, e em nome de quem, precisamos ceder?

Concessões às manadas, que, selvagens, vivem do furto à imaginação. A grande armadilha: contra as permanências incomodas, deletamo-nos. E quanto aos nossos cálculos e julgamentos inexatos? E nossos  sonhos, truncados por vestígios intrusos?

Por que, céus, nos evitamos? Por heroísmos que serão desfeitos? Por promessas que sabemos lacunares? Pelas ambiguidades políticas planejadas? Por relações instrumentais que nunca formaram laço algum? Só há uma pergunta que o tempo assopra: o que nos faz resistir a enfrentar o segundo, a hora, o dia, o ano, a década, o milênio, e a história?

É o medo que te paralisa? É a ameaça dos infelizes? A vingança retroativa dos ressentimentos? Ou apenas os afiados eixos do estoicismo? E se o fracasso fosse garantido e pautássemos o desprezo pelo sucesso? E se, como filósofos, invertêssemos a lógica?  Rompêssemos com toda linearidade obsessiva. E se nossas vidas não dependessem da abulia alheia? E nosso exercício principal fosse sobreviver de detalhes? Expulsar o que sempre foi dado para que algum tipo de impossível sobreviesse? Soa óbvio? Só sob a trajetória improvável temos chances. E se saltássemos das antigas embarcações sem saber o que esperar? E se o destino formasse um reino autônomo?  E o remo não ficasse restrito à água?

E se aqueles que nos abraçaram por toda vida, os de aqui e acolá, forjassem um elo? Invisível, mas não intangível.  O uníssono que nos acolhesse no aqui agora. E se expandisse para um sempre afora. E na ritmicidade atemporal. da orquestra de violinos e pianos suspensos erigisse a barreira que precisamos. A barreira que filtra e aceita aqueles que se aproximam. E suavemente, como toda filtragem, nos fizer desistir daqueles que não reparam nas minúcias, que ignoram as efemérides de um fim de dia, aqueles que  não sabem — e não querem saber — ao que vieram.

E, mesmo assim, avulsos, possamos aceitar as famílias que ainda não nasceram.

Que o ano nos seja leve e carregue os impulsos de nossas aspirações, e missões.

 

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