O ano que vivemos pelo fim

O ano que vivemos pelo fim

Paulo Rosenbaum

31 de dezembro de 2018 | 22h47

   Peça Lalique – Museu Calouste    Gulbenkian – Foto PR

O ano no qual vivemos em função do fim.

Não foram só efemérides. Considerem que os tempos são relativos às espécies, Uma libélula vive seis meses, uma abelha um, a mosca doméstica 15 dias, um efemeróptero já na vida adulta, em média, um dia. Num Universo que estima-se tenha 5,3 bilhões de anos, o ciclo que se encerra hoje é apenas mais um. Arbitrário, como todas as decisões culturais. Entretanto, há uma outra linha que interpenetra as unidades que o mensuram. Isso significa que, talvez, o fim do ano possa se misturar com os começos e que os términos não sejam apenas reles finalizações simbólicas.

Por isso, este não foi um ano que apreciamos, nem sequer o vivemos, pode-se dizer que existimos apesar dele. Notem que, como nunca, a espera pelo passagem de um ano para o outro encontra-se anormalmente ampliada, sensorialmente alterada mesmo. Aos milhares pessoas estão afirmando nas redes sociais que o “tempo não passa” que os “365 dias viraram 500” e que “nunca espararam tanto pelo fim do ano”.

Ora, se o tempo é uma constante, por que o incosciente coletivo grita a mesma coisa? Por que o tempo fixou-se num estado de animação suspensa?

Relógios atômicos comprovaram a teoria de que quanto mais alto estamos — por exemplo numa montanha — mais rápido o tempo passa. Einstein previu que o fluxo de tempo pode passar mais lenta ou rapidamente por sofrer dilatação em função da gravidade de um corpo macíco que gera tal distorcão na equação espaço/tempo — o que teoricamente nos permitirá, um dia, viajar através dele.

Arrisco escrever que nossa aflição sobre o tempo orbita outra esfera, ainda que a metáfora do alto e do baixo venha a calhar. Visto de um angulo único este foi um ano repleto de atipias, sempre com baixíssimas expectativas em todas as esferas. Experimentamos inédita sequencia de anomalias institucionais. Uma gangorra psiquica que poucos povos em democracias liberais recentemente experimentaram  com tamanha intensidade.

Se consideramos o tempo psicológico nota-se então o que poderíamos chamar de constrição cronológica. Carregada de angústia incompletas. De tensões não objetivadas, as piores. Então sofremos pelo acumulo? Do que sentimos antes e depois de cada uma das decisões sem critério daqueles que deveriam comandar o País? Governos paralisados por um anestésico de lenta infusão? Como conseguimos sobreviver sob a enxurrada de contradições? Que tal viver sem saber se a República existiria no dia seguinte? Oprimidos por uma crise economica sem precedentes? As ameaças diárias de violência? Os dossies de gaveta? As tentativas de assassinato, e os mais de 60 mil bem sucedidos? Os endossos e retrocessos da corte? O País sob ameaça de um Estado Policial? Uma oposição mimética, que nunca fez oposição? Intelectuais que se curvaram ao Poder? A autocritica interditada nas Universidades? A mídia impactada por novas formas de comunicação? O império do senso comum subjugando os diálogos? Consensos impostos? A incapacidade das forças moderadas? Uma legião de fanáticos à espreita para obstruir qualquer reconstrução? A derrota previsível de um regime corrupto e faccioso? Ou a oscilação entre medo e esperança num próximo mandato?

É como se vivessemos numa baixada, e a cratera, uma depressão escavada por ininterruptas inepcias.

Pois, independentemente de onde te leve a reflexão política e ideológica, cultural ou religiosa, o problema do tempo, neste ano, decerto transcenderá teu dilema filosófico. O tempo originalmente uma escala de referencia geral, exigirá, sobretudo, transformar-se em unidade pessoal.

Daqui para a frente teremos que exceder o momento para nos dirigir à corrente de impressões do aqui agora. Eliminar a nostalgia antecipada e lidar de um outro modo com as torturas do passado. Reter a idealização para ficar na torcida do possível. Talvez o que torne interessante viver em tempos assim é seguir, e ainda que por coação aprender que nossas perspectivas não devem mais estar limitadas pelas expectativas.

Não mais.

 

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