O holocausto ainda te incomoda?

O holocausto ainda te incomoda?

Paulo Rosenbaum

27 Janeiro 2016 | 13h14

 Arteria

Se tudo foi dito, por que não calar? Há um silencio ao qual nos reduzimos. Ele é um sintoma? Sintoma de que? Amostra das renuncias que se reciclam. Rejeitar a indução, atávica, persistente, corrosiva. A indução ao ódio. Pode-se seguir ou não o que todos dizem que é. Melhor desconfiar. Suspeita-se de uma nova era rendida à claustrofobia e comandada pelo senso comum. Não enxergamos mais o subtexto, que progride incólume. Foi assim que as intolerâncias desceram às ruas.

Estamos perdidos, num terreno adulterado. Para muito além do desprezo, subvalorizamos a hostilidade difusa que se propaga no atacado. Categorias inteiras demonizadas: imigrantes, refugiados, doentes, os passantes. O mal subsiste, não mais como metáfora.

A dispersão, bem mais do que titulo de livro, vingou como realidade. A perversão opera sob o código do ataque generalizado e de sucessivas edições esgotadas do “minha luta”.

Então, quando abro os roteiros testemunho como única resposta o “nunca mais”. Só aí me pergunto por seu significado? Será um jamais de novo? Um em tempo algum? Ou é a repetição ligeiramente modificada que vale? O solo europeu, de Paris à Bruxelas, pode estar sendo revolvido por cinzas menos evidentes. Ainda assim é o mesmo pesadelo, o mesmíssimo e redundante pesadelo que coroa o Ocidente.

Os judeus, esta etnia, raça, religião, de qualquer forma condição humana, estão de novo no centro de uma batalha. Sem declaração oficial de guerra, sem ultimato e sem armistício.

Mas o judeu é também o não judeu. É o agnóstico e o fanático, o islâmico e o budista, o convicto e o perplexo, a minoria e a massa. E pode vir a ser a fragmentação do torpor que se desdobrou: do inconsciente à amnésia, coletiva.

O mundo, desistindo de educar, agora discrimina, ou taxa, ou confisca, ou mata. O mundo esquecendo de seus fundamentos e critérios, doutrina. Os exemplos, fixaram-se como moralidade superada. A transcendência migra ao choque entre ideologias, afinal, há sempre alguém operando o telemarketing.

Há exatos 71 anos atrás, nos portões de um campo de concentração qualquer, um soldado desconhecido enxergou na multidão a indizível passividade dos torturados. E onde está, hoje, o nunca mais? No boicote a Israel e aos seus cidadãos? Nos subnotificados ataques à faca? Nas manchetes invertidas? Na indignação seletiva? Na não equivalência moral entre coisas distintas? Na imoralidade dos consensos acadêmicos subsidiados com petróleo? Se alguém duvida, basta consultar, a realidade é estatística. Imersos na nova câmara obscura, os precedentes foram habilidosamente removidos a fim de alongar um percurso marcado por agonias replicantes. Isso, quando tudo o que precisávamos eram vidas com propósito.

A luta é, agora, corporal. A gentileza, criminalizada por capatazes que insuflam vinganças. É uma pena, pena dupla: descemos ao reduto dos predadores.

Ainda assim, e pela penúltima vez: nunca mais.

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