O que não consigo perdoar.

O que não consigo perdoar.

Paulo Rosenbaum

06 Agosto 2014 | 12h36

Posso ter lá errado com meus vizinhos. Mas não é por isso que continuam com o foguetório. São 66 anos. A vizinhança e, mesmo em lugares distantes, todos sabem o que está acontecendo. Então, por que se calam? Se ao menos me reconhecessem, até aceitaria discutir o lugar da cerca. Mas eles ficam sonhando com meu desaparecimento. Não vai acontecer. O que mais me espantou? Vi que quando se trata de legitima defesa, uns são mais iguais que outros. Se fosse em outro bairro, outras cidades, ninguém ousaria recriminar. Aprendi que o vale tudo na mídia, e fora dela, serve para ganhar corações e mentes. Conquista barata. Você pode ganhar uma disputa e sair derrotado. A civilização passou a dispensar inquéritos e com apenas um computador na frente, já se pode julgar instantaneamente. Sei que a história tende a revisar as mentiras, o problema é que os registros históricos demoram. Quando conseguem desmontar uma farsa, pode ser tarde demais: a memória do mundo já pode ter caducado. Querem um resumo? Se atacam, me defendo, sou condenado. Me atacam, não me defendo, morro. Sim, tento conversar, mas parece que eles ficam surdos quando se trata de contradição. Os dogmas sofrem de estoicismo. Suspeito de alguma doença nesta santidade toda. Quando reajo, dizem que é desproporcional. Se não me defendo, pessoas são expostas, aí viro cúmplice. Me pergunto se há saída. Depois de tantas pedradas com revide, já não sei quem começou, e, as vezes, me enxergo como bandido. Quando a coisa passa dos limites, instintivamente, volto ao contra ataque. Mas, ao defender os meus, atinjo inocentes deles. Senti que a insanidade se aproximava, quando comecei a esperar o placar mostrar paridade entre vítimas. Pior é que sei explicar porque isso acontece. Me protejo com escudos físicos, eles, coletes humanos. Se me firo menos, murmúrios de desaprovação. A intolerância nasceu com esse dom de reunir várias ideologias na mesma cumbuca. Podem dizer o que pensam, já decorei o bordão dos intelectuais progressistas: ninguém razoável usaria seus filhos como bucha de canhão. Isso é ilógico, irracional, um despropósito. Mas eis a crua realidade desse mundo. Está acontecendo agora. E é exatamente isso que não consigo perdoar: me forçam a ser um executor dos sacrifícios que eles planejaram para si mesmos.