O risco diante do abismo

Paulo Rosenbaum

27 de agosto de 2016 | 11h27

Será que alguém achava mesmo que nós funcionávamos bem? Que aceitávamos estar a mercê de toda esta bagunça? Sim, mas é claro, precisamos escamotear a linguagem para não enunciar os dados de realidade da qual somos todos testemunhas. Só para contrariar Descartes doravante fica proibido vivenciar ideias claras e distintas. Vale dizer, até podemos, só não nos é permitido enuncia-las com a palavra, oral ou escrita. E por que não? Porque as contradições ficariam tão evidentes e o mal estar seria tão onipresente que teríamos que aceitar abrir mão. Abrir mão do conforto de imaginar que existe um controle. De que há comando. Da tranquilidade  com que nos apaziguaram sob o refrão inútil de que as instituições se tornaram firmes, e de que a fragilidade aparente decorre de um erro de interpretação. O desacerto tem a seguinte premissa: somos apenas a parte fraca, o elo insuficiente, as pessoas que não sabem como analisar a realidade corretamente. E por isso, temos que nos render à intelligentzia, a qual, num incrível monopólio editorial, ela é a única proprietária do manual inequívoco. A massa inculta é que ainda não compreendeu que tudo esteve funcionando perfeitamente. Sob o império das leis e da eficácia jurídica o País descia a uma igualdade. Fajuta, mas muito bem divulgada. O prefeito da urbe olímpica acaba de nos dizer em coletiva que sua cidade é, por exemplo, “mais segura do que Miami”. E parece que ninguém o contestou. O ufanismo olímpico superou a crítica. O alcaide teve mais presença de espírito do que o batalhão de repórteres que se acotovelavam ao redor do microfone? Ou estamos submissos a uma era onde as sub verdades caminham a frente da realidade espúria? Ninguém mais desafia. Escasseamos a legitimidade da duvida. Num estranho movimento algumas penas começaram a insistir que agora as ruas é que passaram a ser ameaçadoras, as redes sociais tóxicas, a opinião pública uma ameaça à segurança nacional. Por hipótese tudo é passível de consideração, mas o que interessa mesmo são as motivações dessas ressalvas recentes. Se a opinião publica acerta ou erra é insignificante, o que conta é se ela esta a favor do establishment. Este está viciado em ditar qual é a boa cultura e qual é o pensamento aceitável. O exemplo que deveria afronta-los é a lei editada há alguns anos de que estava proibido protestar durante os jogos, uma espécie de “pequeno jardim de inverno na democracia” para evitar vaias e o coro de “fora dilma”.  Ninguém poderia prever que ela estaria afastada. A lei, assimilada em silencio, agora precisava ser rapidamente revogada para dar lugar ao extemporâneo “fora temer”.  É fácil compreender porque clareza e liberdade interior tendem a se tornar valores cada vez mais hostis à corrente concepção de democracia. É a realidade que afronta os consensos dos bem pensantes. E o senso comum, assim como a opinião pública vão se tornando adversários do sistema, pois incapazes de aceitar o que se impõe a partir das comissões de representantes, departamentos de Universidades Públicas ou das emissoras de Rádio e Televisão. Nesta concepção, os  bastidores moralmente superam as ruas. Os gabinetes é que sabem, melhor do que ninguém, o que é bom para cada cidadão. Um cogito que reduz tudo às facilidades da dicotomia que nos atordoa. Pois para horror de parte dos intelectuais do partido e fora dele foram as ruas e a opinião leiga as únicas vitoriosas na remoção do entulho que assolou o País nos últimos 13 anos. E como cessam as causas, mas não os efeitos, não há qualquer ilusão de que a peste emocional instalada sob os auspícios das academias e das elites políticas, será simultaneamente removida. O penoso último ato foi diagnosticado por um dos seus atores como “julgamento em hospício”, para um leigo não está mal. A esperança, é que seja o início de uma inversão. Na maioria das vezes, mudar o sinal da história não rende os benefícios que se imagina. Muitas vezes, não temos escolhas fáceis e hesitamos. Diante do abismo, correr riscos é um dever.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-risco-diante-do-abismo/

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.