O Salão C da Caverna

Paulo Rosenbaum

01 Março 2013 | 18h51

“Se for cinéfilo, você com certeza já terá ouvido falar na caverna de Platão e nas sombras projetadas em suas paredes como a origem do cinema. Werner Herzog nos leva agora numa viagem à caverna de Chauvet, onde se encontram as mais antigas inscrições – desenhos – feitas pelo homem, há 32 mil anos.”

(Site oficial da caverna)

 

Não foi porque um antigo filósofo escreveu sobre o mito da caverna que Werner Herzog conseguiu permissão oficial para se infiltrar e filmar no reservadíssimo sítio arqueológico em Chauvet. As pinturas e demais inscrições daquela caverna, incrivelmente preservadas, não seriam muito diferentes dos achados dos símbolos rupestres de Lascaux e Altamira a não ser pela vivacidade das cores, uma inusitada e moderna noção de volume e perspectiva. Há um despertar para a arte dos primitivos (que não é primitiva para quem pode acompanhar e exposição do British Museum da arte na Era do Gelo).

Para um cineasta viciado em arriscar não foi inesperado sua opção pela filmagem em 3D. Há muito, Herzog já confessara sua paixão pela imagem pura. “Em um futuro não muito distante o cinema será, um dia, pura imagem” disse-me num debate aberto no Museu da Imagem e do Som em São Paulo.

O governo francês, ao contrário do que se acredita, não proibiu turistas de entrar lá para proteger da deterioração das inscrições e pinturas daqueles homens cuja datação remonta de 30 a 32 mil anos atrás. O verdadeiro motivo foi um painel achado num dos salões espeleológicos menos acessíveis, chamado de salão C.

Conta-se que a primeira equipe de três espeleologistas que explorou a gruta em 1994 já havia se chocado com a qualidade artística da produção. Não era protoarte ou arte primitiva. As representações, impressionantes, esboçavam perspectiva e volume e mostravam animais hoje extintos. Aqueles artistas, podemos chama-los assim, desenharam instantâneos, cenas, que sem eles não desconfiaríamos terem existido.

Tudo se resumiria a isso se Jean Marie Chauvet (que deu nome à caverna) não tivesse feito um diário de campo extra só para a câmara C.

Quais registros estavam grafado no salão C? Por que o mistério? Como num HQ moderna ou mangá, silabas ou símbolos saiam de um balão da boca de uma mulher que estava em pé, diante de um grupo de homens sentados que a olhavam atentos. Não havia dúvidas: eram pelo menos oito elementos sequenciais. Mas o que significavam? Símbolos aleatoriamente agrupados? Uma onomatopeia? Tentativa pictórica do registro da voz? Filólogos e especialistas em criptografia e alfabetos primitivos foram convocados para colaborar na elucidação do enigma. Malograram.

Pelo que se sabe, a linguagem organizada foi uma aquisição muito posterior àquela data. Consta que os primeiros alfabetos conhecidos, cuneiforme mesopotâmico e hieróglifos egípcios, estavam distantes pelo menos 26 mil anos depois daquele evento. A equipe inteira de filmagem e produção teve que assinar rigorosos termos de sigilo com multas milionárias para qualquer menção ao conteúdo do salão C.

Isso até Herzog, no dia de confraternização pelo término das filmagens conversou com uma comerciante idosa de Vailon-Pont-D’Arc, vendedora de ervas na feira livre da pequena cidade. Ela contou que muito antes da descoberta oficial ouvia-se muitas histórias sobre a caverna. E confidenciou a Werner que sabia o significado da linguagem dos antigos habitantes da região. Sob efeito da vodca, mas sem identificar a procedência o cineasta mostrou a foto do detalhe enigmático do salão C. Registrada e devidamente criptografada em seu celular.

Cético, deixou que a senhora testemunhasse a expressão que saiu viva da boca da nossa ancestral e que perdurou nos últimos 30 séculos:

— Veja estes símbolos aqui.

— É essa palavra? Margot trocou de óculos para se aproximar da imagem.

— A senhora sabe o que significa?

— Claro que sim.

— Por favor, então diga. Herzog deu um riso tremulo, esperando a resposta.

— Quer dizer “me esqueçam”

Os outros discordariam, mas o que se testemunhava ali poderia muito bem ser nada menos que o exato instante do nascimento da linguagem. Depois de se certificar que a filosofia não teria respostas o cineasta embarcou de volta para a Alemanha.

Obcecado, confidenciou aos amigos que, desde lá, sonha diariamente com a mulher da gruta.

 
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